Viajantes do Universo

(Imagem: @kk_kaska/ We Heart It)


            No céu há doze estrelas. Durante muitas primaveras tenho morado quatro luas em cada uma delas. Dias sozinho, dias acompanhado. Mas sempre em busca de algo, sem saber se o próximo corpo celestial traria o recanto definitivo para a minha jornada. Diversas tempestades encarei, passeei em alguns cometas, morei mais tempo em uma estrela do que em outra. Tem sido uma viagem de descobertas, minhas e dos outros viajantes. Ah, sim. Não sou o único. Existem ao menos sete bilhões. Uns, tateiam galáxias por dezenas de luas até encontrarem aconchego no colo do Universo, outros, não compreendem o sentido deste passeio antes do fim da excursão.
            Não sou muito bom com datas, sou do tipo que guarda mais as sensações, aromas e rostos do que os dias decorridos. Por isso não sei precisar quando que esta caminhada espacial passou a fazer algum sentido. O que posso afirmar, e com algumas ressalvas, é que foram precisos muitos tropeços em meteoros, incontáveis colisões com planetas, diversas viagens mal planejadas e ferimentos que teimaram em fechar, até eu despir a vestimenta pesada que eu carregava. Era colorida com tons esverdeados, rosados, violetas. No entanto, em algum momento se tornou cor de chumbo, passou a exalar um odor ácido e dificultar a respiração.
            Sinceramente, não foram poucas as vezes que pensei em arrancar aquela roupa e deixar o ar tóxico me consumir antes de chegar na próxima constelação. Porém, outros andarilhos do Espaço me encontraram vagando, me emprestaram um tubo para respirar e, o mais importante, ouviram o que eu tinha para dizer. Tenho quase certeza que muitos viajantes ainda não descobriram o poder curativo de um ombro, um ouvido e um abraço. Apesar de estarem tão perdidos quanto eu, os peregrinos não hesitaram em trilhar parte do trajeto comigo.
            As estrelas passavam e minha roupagem ia ficando menos cinzenta e mais leve. Aos poucos, senti algo se mexendo, seres diferentes daqueles que estava acostumado. Antes, o que me acompanhava eram parasitas que se alimentavam de mim e de todos que se aproximavam. Estes, porém, eram outros. Me preenchem de outra forma, vivemos em uma troca harmoniosa, eles crescem, eu evoluo e tento ajudar outros trilheiros desorientados a cultivarem seus próprios organismos luminescentes.  Nem todos os parasitas se foram, ainda restam uns poucos, mas os que ficaram não são suficientes para tingir minha roupa de um tom escuro e nem têm força para pesar a ponto de impedir meu percurso.
            Um punhado dos viajantes que me encontraram seguem comigo. Muitos, na verdade. Somos praticamente uma tropa espacial. Às vezes caminhamos juntos, outras, separados, mas nunca deixo de pensar neles. De vez em quando a gente muda a rota para salvar um amigo que se perdeu entre uma estrela e outra. Cada partida de um mochileiro tem um significado diferente. Alguns alimentam as criaturas das sombras, estes, se não querem ajuda para reduzir os próprios monstros, faço questão de que sigam a jornada sem minha companhia. Aqueles que brilham tanto quanto as esferas que nasceram em mim, fico grato quando decidem permanecer, e mesmo indo embora a sua presença se mantém comigo na forma de luminosidade deixada por eles.
            Com o passar das estações, aprendi a valorizar as tempestades espaciais e os viajantes, pois eles têm me ajudado na jornada. Porém, compreendo que a estadia é muito variável, algumas estrelas parecem se arrastar por luas a fio e outras transcorrem na velocidade da luz. Certos trilheiros são quase como estrelas cadentes: após entrarem em contato com a atmosfera brilham intensamente, se desgastam e logo se apagam, deixando como registro apenas meteoritos.
            Já se passaram umas três ou quatro primaveras desde que fui resgatado, sigo a viagem com ou sem rota, mas desta vez eu sei o que busco. O percurso é constante, indefinido, nebuloso e repleto de chuvas de meteoros. Porém, não busco refúgio como em outras auroras, as feridas, insuficientes para me parar, são curadas quase que na mesma fugacidade que são feitas. Gastei centenas de estrelas procurando o que já estava na minha bagagem, deixei minha roupa ficar igual chumbo por carregar peso alheio. Naquele ciclo quase me implodi como uma estrela cadente e por pouco não entrei em combustão. Agora, consigo descansar em um cometa para admirar o Universo. É silencioso aqui, esta calmaria e beleza alimentam os seres reluzentes que habitam em mim. Os parasitas obscuros fogem da luz, do calor e das boas sensações, sem ter onde se esconder, acabam desintegrados. A cada orbe espacial que se encerra, as criações luminosas brilham mais intensas. Lentamente a vestimenta, antes acinzentada, recupera a vivacidade anterior, vagarosamente tomo características de um corpo celestial.

Comentários

Postar um comentário

Comente abaixo sobre a crônica

Minhas postagens mais vistas

Menos expectativas,mais felicidade

O Charmander é vermelho,

Girassol