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Mostrando postagens de 2020

Sussurro

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Foto:  Wael Alramahi/We Heart It Era uma noite que já fazia parte da rotina que criamos - uma janta deliciosa acompanhada de um filme ou série -, nós enrolados no sofá da sala. É algo tão simples, mas ao mesmo tempo único, e nosso, íntimo. Já tinham se passado dias desde que entendi o que estava acontecendo comigo, só que eu não queria admitir, aceitar, cogitar essa ideia. Afinal, fiz as pazes com a ideia de construir um legado sozinho, uma mala de baixo do braço e o desejo de mudar o mundo, nada além disso. É tão clichê e verdadeiro. Porém, foi crescendo, entre as falhas da calçada, debaixo do sol, chuva, vento, das solas dos meus pés, tentativas de não deixar vingar e florescer. Eu estava tão perplexo que não conseguia nomear. Afastava essa palavra dos meus pensamentos como quem tenta estapear um inseto insistente. Falar em voz alta?! NUNCA! Tive que jurar frente ao espelho, numa daquelas conversas com o meu interior, me encarando nos olhos e revirando dentro da alma, que não era...

Extinto pelo fogo

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Enquanto meu fogo destrói a humanidade, eu estarei admirando a extinção das misérias (Imagem: @chesakins/ We heart it) Rejeição. O gosto amargo da desistência alheia escorre pela minha garganta seca. Esse líquido queima enquanto arrasta sua viscosidade obscura, marcando meu interior com o sabor do fracasso. Há anos que digo que eu construo muralhas para impedir que viajantes se aproximem - é como me defendo das mágoas humanas. Porém, vez ou outra um guerreiro ultrapassa essa barreira ou, por algum motivo que não sei explicar, deixo ele entrar nos meus domínios. Seja qual for a razão dessa invasão, o resultado é bem parecido: eu, encolhido em um canto qualquer, sendo corroído pela dor. Embora as retas finais tenham similaridades, sou como uma mariposa atraída pelo calor e no lapso de minutos que esqueço o passado, eu voo na direção do fogo, alegre, batendo as asas rumo ao fim. Essa dança macabra, orquestrada por um destino irônico e ácido, me hipnotiza, deixando em t...

Cela no subsolo

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Por trás dessa tua testa franzida e expressão carrancuda se esconde um ser que se encanta com um sorriso espontâneo, sente a brisa do final da tarde como um carinho no rosto e enxerga os mais singelos sinais de afeto. Eu olho nos teus olhos e encaro uma labareda acesa, dançando em tons vivos de amarelo e vermelho. Mas te pergunto: por que tu foge tanto? Do que tu tem medo? Aliás, de quem tu tem medo?  Toda vez que alguém se aproxima demais, tu liga um tipo de alarme interno que aciona teus portões, muralhas com arame farpado e cacos de vidro que são vigiados por feras que estraçalham os intrusos. Ninguém pode chegar perto. Ninguém pode ver o que se encolhe por trás de ti, desse personagem inabalável e inacessível.  Talvez, tu pense que isso é proteção, é sobrevivência. E eu te entendo, sabe. Tua pele não está marcada por tantas cicatrizes e marcas, porém, o teu coração e tua alma sim. E são esses remendos sombrios que sussurram nos teus ouvidos. Eles dizem qu...