Cela no subsolo


Por trás dessa tua testa franzida e expressão carrancuda se esconde um ser que se encanta com um sorriso espontâneo, sente a brisa do final da tarde como um carinho no rosto e enxerga os mais singelos sinais de afeto. Eu olho nos teus olhos e encaro uma labareda acesa, dançando em tons vivos de amarelo e vermelho.

Mas te pergunto: por que tu foge tanto? Do que tu tem medo? Aliás, de quem tu tem medo? 

Toda vez que alguém se aproxima demais, tu liga um tipo de alarme interno que aciona teus portões, muralhas com arame farpado e cacos de vidro que são vigiados por feras que estraçalham os intrusos. Ninguém pode chegar perto. Ninguém pode ver o que se encolhe por trás de ti, desse personagem inabalável e inacessível. 

Talvez, tu pense que isso é proteção, é sobrevivência. E eu te entendo, sabe. Tua pele não está marcada por tantas cicatrizes e marcas, porém, o teu coração e tua alma sim. E são esses remendos sombrios que sussurram nos teus ouvidos. Eles dizem que tu não é digno de afeto, que tu nunca vai ser suficiente pra ninguém, que qualquer um que te ver, desnudo e desprotegido, vai ver o quão patético tu é, mesmo tentando aparentar o contrário.

Embora nada do que esses parasitas dizem seja verdade, tu já teve o peito rasgado e foi jogado na sarjeta mais vezes do que tu pode contar. Ainda que sem memória exata de tudo, os traumas e inseguranças estão lá, sempre em estado de alerta pra vestir os apetrechos e ir pra guerra contra a tua própria felicidade. 

Apesar de tudo isso, tu ignora que o fogo no teu olhar é apenas uma pena que se soltou das asas da fênix que habita em ti. Tanto quanto tu foi morto, tu renasceu, se reinventou, voltou triunfante de uma das batalhas mais difíceis que enfrentamos diariamente: contra ti mesmo. E com aversão pela dor que é reviver outra vez, tu prendeu essa ave de fogo em uma jaula no subsolo da tua muralha. Os cães que rondam teus portões e atacam os outros e a ti é que deveriam estar presos, não a fênix. Embora ele esteja em cárcere, o teu pássaro é tão intenso que o brilho dele ultrapassa o umbral que  o separa da liberdade.

Lembra da sensação de deixar a fênix voar pelo teu céu? 

Aquela brisa que te acalma, acolhe e atiça teus sonhos, os braços abertos enquanto passeia pelo universo que pulsa na tua existência. No entanto, certo dia tu decidiu que a cela da tua ave era o analgésico para a dor de viver. Tuas razões são válidas. Teu pavor é sincero. Mas eles gritam tão alto que tu não enxerga quem tu é, onde tu pode (e quer) chegar. Em algum momento tu deixou que a tua escuridão fosse mais densa do que tuas labaredas.

Eu encaro esses olhos no espelho e enxergo uma criatura que quer soltar as algemas. Tu nunca gostou de cela, nem da solidão constante. A imensidão jamais te assustou, pelo contrário, os infindáveis cenários te compelem a pular da ponta do abismo e mergulhar no mundo. Esses trapos não se adequam ao teu corpo porque tuas formas são infinitamente maiores do que as vestes justas que mutilam tua essência. Está tudo bem andar sem as roupas fabricadas com o tecido da hipocrisia, é desnecessário renegar o teu espírito. 

Evitando novas feridas, tu enclausurou o teu maior trunfo - o poder de ressurgir do pó, sangue e ossos. Ainda que tu seja nocauteado, tua vida palpita, lateja, luta pra voltar. E ninguém, nem nada, pode arrancar isso de ti, tanto que tu mesmo colocou a fênix na gaiola, não foi o sofrimento, a perda ou os sussurros.

Se tu doma um pássaro de fogo, por que teme  as criaturas que vivem na penumbra?

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