Girassol
Noites e dias eram o mesmo pra mim. Estrelas e cometas, sol e chuva, luminosidade e escuridão. Nada disso me fazia florescer porque eu não via o tempo e a vida passar. Mas, ainda assim, esse percurso era confortável e tinha sido o meu lar por quase três décadas, mesmo que eu me sentisse engolido por ele a cada passo.
Sempre pensei que eu era uma erva daninha. Não daquelas que crescem tímidas entre as rachaduras da calçada e, vez ou outra, desponta uma flor amarela. Mas as ervas que tomam conta de tudo, que são capazes de corroer qualquer coisa que estiver no caminho.
Além de pensar que esse era o meu destino - planejado por algum ser místico sarcástico -, eu vivia como uma erva daninha, afinal me percebia desse jeito. Assim, fui consumindo pessoas e relações, criando raízes em solos inférteis.
Enquanto outros seres tentavam se aproximar de mim e mencionavam que, talvez, não fosse essa planta danosa e destrutiva, eu ignorava o conselho e crescia na direção oposta. “Eu sou uma erva daninha e a minha única função é ingerir o que estiver pela frente”, pensava comigo. Não tinha como ser outra coisa que não isso. Já não sabia como ser outra coisa.
Pra crescer, não era a luz solar, água ou outros nutrientes. O ódio, a solidão, a falta de amor próprio e o desrespeito com todas as vidas era o que me alimentava. Esse fluído grosso, viscoso e escuro me dava forças. Mas também me tornava amargo, distante e indiferente.
Numa dessas jornadas em busca de dissipar mais um pedaço de terra, enxerguei uma planta solitária no horizonte. Não a reconheci, porém, me senti inexplicavelmente atraído por ela. De longe, me lembrou um bocado o astro rei.
Me arrastando pelo solo e apodrecendo tudo pelo caminho, cheguei na tal flor amarela. Ela emanava um brilho intenso e, ao mesmo tempo, aconchegante. Não consegui sugar as energias dela. Seja porque eu estava perplexo com a beleza e poder, seja porque essa flor tinha bem mais força do que eu.
“Você também é um girassol”, a voz imponente e calma daquela planta cortou o silêncio e atravessou os campos. Não compreendi com quem ela estava falando. Não tinha outras criaturas por ali, só eu. “Você é um girassol”, repetiu, sem explicar mais nada.
Olhei diretamente para o girassol. Eu não era grandioso, nem afetuoso ou poderoso como ele. A gente não era da mesma espécie, não podia ser. “Eu...um girassol?”.
O desconforto no meu próprio caule, folhas e raízes começou a fazer algum sentido. Então, as vozes das dezenas de seres que já tinham me alertado sobre eu estar seguindo a jornada de outra planta vibraram de novo na minha mente.
Por mais de vinte anos declarei de peito aberto pra quem quisesse (ou não) ouvir que eu era uma erva daninha, que fazia dos outros o meu alimento. Entretanto, a verdade é que eu deixava os outros se alimentarem de mim porque um pedaço meu ficava pra trás a cada nova partida.
Depois de horas ou dias parado ali, finalmente voltei a olhar para o girassol. Ele estava de costas pra mim, virado em direção ao sol, com o semblante calmo e relaxado, como se estivesse recebendo o abraço mais caloroso do mundo.
Decidi fazer o mesmo. Afinal, já não tinha mais nada e nem ninguém a perder. Me sentia completamente sozinho e sem rumo. Virei o meu caule para o sol e a luz do astro me cobriu por inteiro. Naquele momento entendi quem eu sempre fui de verdade.
Eu sou um girassol.

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