Extinto pelo fogo

Enquanto meu fogo destrói a humanidade, eu estarei admirando a extinção das misérias (Imagem: @chesakins/ We heart it)



Rejeição.
O gosto amargo da desistência alheia escorre pela minha garganta seca. Esse líquido queima enquanto arrasta sua viscosidade obscura, marcando meu interior com o sabor do fracasso.
Há anos que digo que eu construo muralhas para impedir que viajantes se aproximem - é como me defendo das mágoas humanas.
Porém, vez ou outra um guerreiro ultrapassa essa barreira ou, por algum motivo que não sei explicar, deixo ele entrar nos meus domínios.
Seja qual for a razão dessa invasão, o resultado é bem parecido: eu, encolhido em um canto qualquer, sendo corroído pela dor.
Embora as retas finais tenham similaridades, sou como uma mariposa atraída pelo calor e no lapso de minutos que esqueço o passado, eu voo na direção do fogo, alegre, batendo as asas rumo ao fim.
Essa dança macabra, orquestrada por um destino irônico e ácido, me hipnotiza, deixando em transe até que o rasgo no peito seja tão profundo que causa mais um talho no meu coração pulsante.
Mas eu não sei sofrer sozinho. O mundo deve ser inundado pelas minhas lágrimas e os céus devem ecoar até o final dos tempos os meus gritos de luto.
Toda a minha fúria ainda vai abraçar o globo e a calmaria só irá voltar quando toda a vida terrestre for erradicada.
E, enquanto o meu fogo destrói a humanidade, eu estarei na torre mais alta da minha muralha, admirando a extinção de todas as dores, sofrimentos e misérias.
Esse devaneio catastrófico é mero fruto das incontáveis vezes que fui jogado na sarjeta do afeto e nas fossas isentas de amor próprio e aceitação.
Eu não quero mais que doa, não quero mais doer, não quero que lateje, não quero ser partido e deixado para me remontar, solitário.
Entretanto, uma vida assim é utópica. Viver é dilacerante, tortuoso, demolidor.
A habilidade de se refazer depois de cada tempestade de caos é a virtude que mais deve ser desenvolvida porque as quedas em abismos são inevitáveis.
Ou eu vivo somente entre as cinzas, ou uso a derrota para criar um novo corpo mais preparado, apto a enfrentar o desconhecido - não há tantas opções.
Agora, fico recluso enquanto trato cada uma das feridas da alma e do peito. Hoje não irei fazer o mundo arder em chamas, não ainda.






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