Sussurro


Foto:  Wael Alramahi/We Heart It

Era uma noite que já fazia parte da rotina que criamos - uma janta deliciosa acompanhada de um filme ou série -, nós enrolados no sofá da sala. É algo tão simples, mas ao mesmo tempo único, e nosso, íntimo.

Já tinham se passado dias desde que entendi o que estava acontecendo comigo, só que eu não queria admitir, aceitar, cogitar essa ideia. Afinal, fiz as pazes com a ideia de construir um legado sozinho, uma mala de baixo do braço e o desejo de mudar o mundo, nada além disso.

É tão clichê e verdadeiro. Porém, foi crescendo, entre as falhas da calçada, debaixo do sol, chuva, vento, das solas dos meus pés, tentativas de não deixar vingar e florescer. Eu estava tão perplexo que não conseguia nomear. Afastava essa palavra dos meus pensamentos como quem tenta estapear um inseto insistente. Falar em voz alta?! NUNCA!

Tive que jurar frente ao espelho, numa daquelas conversas com o meu interior, me encarando nos olhos e revirando dentro da alma, que não era culpa minha. Não era. Eu não deixei isso acontecer. Pelo contrário: escrevo, falo e reflito o tempo todo sobre ser um guerreiro solitário, numa torre, com farpas, armaduras e tudo que coloque uma barreira entre mim e esse sentimento, especificamente esse. 

Mas bem, uma pessoa que mantém a mesma ideia ou percepção sobre algo para a vida toda acaba solitário e deixa de viver, de verdade.

Sim, eu sei que dói. Tem os dias difíceis, as discussões, as desavenças, os assuntos que discordamos...Eu só, finalmente, entendi o espaço que tu conquistou dentro de mim, quando consegui dizer em voz alta. Claro, eu estava sozinho no meu quarto, com as luzes apagadas e de olhos fechados. Não doeu. Meus lábios formaram as palavras. Respirei fundo. Aceitei que tu tinha vencido.

Tá, mas e como, quando, onde dizer?

Foi depois da janta, do filme e do aconchego no sofá da sala.Dois corpos despidos, debaixo do chuveiro, a água morna escorrendo pelas costas. Deitei a cabeça no teu ombro.

“Eu te amo.”

Eu disse em voz quase inaudível, sem pensar, sem travar uma batalha com meus sentimentos, buscar um motivo lógico ou todos aqueles dispositivos e desculpas engenhosas apenas para não me sentir vulnerável.

Aquele sussurro tímido abrigou tudo o que sinto, teu cheiro, toque, intimidade, parceria. Nós.



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