Somos de papel ?


A CIDADE ERA DE PAPEL,
MAS AS MEMÓRIAS
NÃO ERAM.

                      Há dois dias atrás terminei de ler o livro "Cidades de Papel" de John Green, que mesmo começando como um romance infanto-juvenil clichê, no qual Quentin,o garoto geek (leia-se nerd) é apaixonado por Margo, a garota popular da escola, ele nos leva a refletir sobre como contribuímos para a construção da forma que somos vistos pelos outros.
A narrativa é fantástica e os personagens têm dinâmica e questionamentos realistas.
Quem é que nunca idolatrou uma pessoa (chegando a criar uma seita) e depois observar que ela é tão mortal quanto a gente ?
Todos nós.
Ninguém escapa da idealização. Mesmo teoricamente sabendo que somos feitos da mesma constituição celular, teimamos em criar uma personagem para admirar. E na hora  em que  o ídolo é descoberto humano, toda nossa crença caí por terra.
Sonhar,idealizar, criar é inerente à raça humana, porém, não se pode deixar de lembrar que apenas iremos descobrir quem aquela pessoa é de fato após conviver com ela e tentar vê-la por inteiro, não como um ser de outro mundo, feito de papel, mas como alguém com inúmeras dimensões.
Quentin, em determinado ponto do livro começa a perceber que mesmo sendo vizinho de Margo por anos, estudando na mesma escola que ela e a observando em todos os momentos possíveis, não sabe praticamente nada sobre a garota.
Já passou por isso ? Acredito que sim.
Essa má interpretação tem duas origens principais :
1. A forma como agimos e nos expressamos.
2. A forma como os outros interpretam a forma como agimos e nos expressamos.
Muitas vezes escolhemos máscaras e nos escondemos atrás de um personagem que não tem nada em comum com o que somos de verdade.
Razão ? Queremos ser aceitos, queremos nos aceitar. E é aí que mora o perigo : tentar enganar a si mesmo,querendo acreditar que somos qualquer um, que não quem somos.
Mudamos a anatomia, os trejeitos, as rotinas, o endereço, mas a essência permanece intacta por certo tempo. Claro, com o passar dos anos ela vai sendo consumida por aquele personagem, mas antes de ser engolida por completo ela reúne forças e faz uma última tentativa para impedir que erradiquemos nossa autenticidade.
Existe o outro lado também, a forma que os outros nos vêem.
Para entender claramente as pessoas, é preciso estar com todos os canais de comunicação abertos e sintonizados. Olhos atentos, ouvidos aguçados, coração apostos, alma alerta. Só assim para vermos mais do que enxergamos.
Já parou para pensar na nossa obsessão com papel ? 
Dinheiro de papel, casamento de papel, contas de papel, compromissos de papel, casas de papel, vidas de papel. Damos um valor exagerado a algo tão frágil e propenso a ir parar na lixeira, pode até ser uma metáfora para a maneira que nos levam a viver : amassou, jogue fora. Mas e o coração ? A carne ?  As vontades ? Os desejos ? Os medos ? 
Nada disso é de papel. Sentimentos são, por vezes, mais frágeis que papéis, porém verdadeiros.
Somos egoístas. Não queremos saber quem é o outro. Dane-se quem quer que seja. Por que eu me daria o trabalho de conhecer alguém além de mim ? Defeitos ? Já bastam os meus. Problemas ? Vish, tenho mais do que deveria.
Para essa pergunta existe uma simples resposta : o ser humano é encantador, assustador. A forma mais dinâmica de aprender sobre nós mesmos é convivendo com os outros.
Vivemos por tanto tempo nessa realidade de papel que acreditamos não ter mais profundidade do que aparentamos. E dá-se luz à monotonia. De casa para o trabalho, do trabalho para casa, fazendo  o que é necessário, sem empolgação. Não basta ser feito de papel, tem que ser aquele de cor cinza, chato, sem vida.
A folha A4 colorida tem seu encanto : vibrante, seus problemas são supérfluos, personalidade cativante. Mas ainda assim, tem apenas dois lados.
Acredito que somos mais parecidos com árvores. Temos vários tamanhos, formas, cores, necessidades, porém interligados uns aos outros, vivendo num grande ecossistema. Criamos raízes. Fortes, resistentes a tufões, fracas, levadas por um sopro de vento.
Nada impede alguém de querer ser de papel. Quer ser, que seja. Concordo com quem acha que ser plano e comum torna a realidade menos descomplicada, mas aquela papelada é facilmente amassada, rabiscada, rasgada, jogada fora. Se agir como papel, será tratado como tal.
Destino mais cruel que esse, é ser fadado à encontrar uma pessoa bidimensional, formar uma família A4 e morar num lugar de papel, onde as aparências têm mais valor do que o conteúdo.
Na busca por Margo ( que desaparece deixando pistas sobre seu paradeiro) Quentin conhece lugares, faz amizades, aprende seus limites, conhece quem é a garota por trás da máscara de rainha da escola. Aí ele pondera que na maioria das vezes não somos quem aparentamos, escondemos a profundidade da alma por trás da fina folha de papel.
Ele é apaixonado por uma idealização, sua musa intocável. No decorrer da trama descobre um fato impensável para ele : a sua deusa é tão humana e normal quanto ele. Porém, cada informação que adquire sobre ela faz com que goste mais da garota.
Assim é o amor. Que nasce das resoluções das más interpretações. Amar precisa de profundidade para que raízes cresçam e papel não serve.
Depois do deslumbramento restam duas opções :
1. Decepção.
2. Aceitação.
Na primeira, vemos que o ídolo é alguém comum e nada sobrenatural, isso leva consigo a crença da pessoa perfeita, nos deixando a sós numa embalagem à vácuo com a desilusão e o pessimismo.
Na segunda, a descoberta é a mesma, mas aceitação da humanidade do outro leva a um caminho menos doloroso, já que aquela pessoa é tão real quanto eu.
ESTOU LIVRE ! ! !
Posso finalmente admitir minhas raízes e galhos. Cansei dessa página branca e amassada. Folha jogada pela janela, flutuando por aí até parar na  cesta de lixo em cima de outros rascunhos. Mas alguém me encontrou, leu meu conteúdo, me remendou e colocou em seu livro.
Basta observar o seu redor e ver mundos a uma ventania do fim. Desejo que eles aprendam que há mais do que vêem antes de estarem tão riscados por outros que não conseguirão distinguir onde está sua caligrafia verdadeira.
Não sou de papel. Sou de carne, osso, músculos, vísceras, coração, espírito. Nem você é. Não precisa ter tamanho A4, nem seguir o padrão branco e plano. O que precisa é traçar suas próprias rotas, vai que no percurso você deixe de ser menos celulose e torne-se mais celular.





Comentários

Minhas postagens mais vistas

Menos expectativas,mais felicidade

O Charmander é vermelho,

Girassol

Viajantes do Universo