Vida na Janela
por Andrew Sotoriva
Você já reparou no grande número de pessoas que observam os acontecimentos através de uma pequena janela ?
A chuva cai. As gotas não molham.
O vento sopra. O vidro protege.
Os pássaros cantam. O som é abafado.
O sol brilha. O calor e a luz tocam parcialmente.
Simples. Leve. Monótono.
Todas sensações e sentimentos tornam-se superficiais. Agente não sente.
Eu desfruto a sensação de revirar a vida nos dedos, sentindo cada fissura, cada relevo, cada elevação.
Pegar o pêlo desse bicho selvagem com as mãos e ir domando ele aos poucos.
É assim : ou você doma ou é domado. Caça ou caçador. Não há meios termos.
O seu redor te abocanha, te saboreia com a língua áspera, te engole e deixa só os ossos.
Devo concordar com quem diz ou pensa que a janela é uma forma segura de passar pela vida. Concordo parcialmente.
Sim, a vidraça te poupa dos respingos da lama repleta de dor e do tempo empoeirado mas também impede a luminosidade da felicidade e a plenitude do aprendizado preencherem a escuridão de um viver solitário.
Ela te transforma em prisioneiro domiciliar. Tudo é filtrado por aquele segurança transparente.
Já que o vidro é a prova de som as críticas e gritos não te atingem, mas o outros não ouvem sua voz.
Já me escorei no parapeito da janela e me transformei em espectador da minha própria vivência.
Quem sobrevive assim não vive.
O gosto amargo também serve para dar um sabor mais explícito e vivo ao doce.
O vitral te deixa desprovido de paladar.
O azedo vai tocar seus lábios. Talvez você tenha que o digerir.
O adocicado irá colocar um toque suave no amargo dos dias.
Não há forma de ser feliz sem ter que lidar com dificuldades. O caminho é espinhoso, os pedregulhos machucam as solas dos pés mas também deixam sua couraça mais resistente.
Uma hora cansa ser apenas protegido. Dá tédio ser o observador.
Quando cheguei a esta conclusão , recolhi uma das pedras entre meus pertences e atirei-a na direção da minha janela.
O vidro rachou e em segundos o chão da minha consciência estava coberto de cacos.
Todos preconceitos, pré conceitos, pensamentos, aparências e sentimentos estavam lascados e misturados.
Deu trabalho selecionar o que é útil ou obsoleto. Até deu para tirar a ferrugem de algumas de minhas posses e deixá-las em bom estado. Nem eu sabia que haviam tantos rabiscos e planejamentos relevantes no meu ser.
Descobri outro eu. Arrisco ao afirmar : O verdadeiro eu.
Estava tão embaçado e pálido que tive que alimentá-lo por semanas com coragem, perseverança e atenção até que tivesse forças para se reerguer entre os estilhaços.
Durante esses cuidados, a vida pulou o parapeito do que era minha janela, encarou nos e disse de maneira imponente : " O que há aqui fora é belo e perigoso.Venham viver."
Pelo canto do meu olho pude ver o restante da minha alma concordar com um leve aceno de cabeça e um fraco sorriso. Não tive dúvidas.
Foi assim que eu e a vida amparamos a legítima essência e seguimos por vielas desconhecidas.
Com o passar do tempo e dos lugares, atravessamos belos campos, temerosos pântanos, praias quentes e até ilhas desertas.
A vida não é vitrine. É palco.
É hora de espedaçar sua segurança. Quebre esse vidro.
Deixe o medo na sala de estar sombria e siga a o brilho do seu espírito.
Faça com que a claridade lance seus raios por toda sua existência. Tome para si a honra e o prazer de estar vivo.
Use o vazio que a janela partida deixou para construir uma porta.
Respire fundo, conte até três ( somente até três) e tome fôlego para girar a maçaneta.
O que há por trás do portal ?
Seu próprio palco.
Fobia de existir ? Receio do que está por vir ?
Acredite em mim : Nada é mais tenebroso do que a masmorra reservada aos fracos de coração. Aqueles que tem apenas a solidão e a ignorância como parceiras de sobrevivência.

Comentários
Postar um comentário
Comente abaixo sobre a crônica