Viagem interrompida ?
Aquele navio tão seguro parecia que nunca afundaria, mas bastou uma onda forte para ele naufragar. Ao meu redor tudo era um borrão de cores, sons e água.
Depois veio o silêncio absoluto e depois o barulho do mar.
Por um tempo fiquei tentando nadar de volta para os destroços da embarcação.
Não queria deixar para trás os resquícios de algo familiar.
Aquele navio era o único conhecido por centenas de quilômetros.
Depois de compreender que não conseguiria nada de útil dali, fiquei sem saber o que fazer.
Fechei os olhos e esperei o oceano escolher por mim.
Na manhã seguinte acordei na praia sem compreender como tinha chegado ali.
Durante semanas esperei o resgate.
Durante semanas pensei na viagem que tinha sido interrompida. No rumo em que estávamos indo e na chegada ao destino que jamais iria acontecer.
Meu coração aflito projetava em meus pensamentos memórias que lutava para enterrar.
Meu estômago se contorcia de raiva e desespero. Por que eu?!
Dois meses após o naufrágio decidi que não queria mais adormecer olhando para a carcaça do navio. Apaguei a fogueira com um punhado de areia e fui na direção oposta à praia.
Após caminhar por algumas horas, avistei uma cabana que parecia ser habitada.
Cheguei mais perto e vi um homem com uma tatuagem no braço esquerdo.
Era um rapaz bonito. De olhar distante, mas que dava a impressão de conter uma constelação por trás dos olhos.
Ao me ver, ele sorriu fez um gesto para eu me aproximar.
Durante a noite conversamos e ele me contou que sua viagem também havia sido interrompida por causa de um acidente com o navio em que estava.
Aquilo tinha acontecido há cinco anos e desde então ele decidiu morar ali.
O rapaz também me contou que viu o meu naufrágio e que eu era o único sobrevivente.
Ele observou quando desisti e escolhi deixar o mar me levar . Eu ia contestá-lo e dizer que não era bem assim, mas ele me calou com outro gesto das mãos.
- Não precisa se explicar. Numa hora tudo parece normal, e na outra só tem ferro retorcido e água por todos os lados. Sei como é ficar sem rumo. A gente só quer que passe, mas nem sempre a correnteza está a nosso favor. Se esperar pelo oceano, podemos parar na praia ou afundar.
- Ou ser salvo pelo rapaz do sorriso bonito e da tatuagem no braço.
Por alguns instantes nos encaramos.
E depois de uns segundos de silêncio, a cabana encheu-se com nossas risadas.
Como que atingido por um raio, compreendi que o navio não havia interrompido minha viagem.
O naufrágio, que parecia ser o fim, apenas ajustou a minha rota para a direção certa.

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