O PERDIDO E O FORAGIDO

(Imagem: We Heart It)

Fugir do mundo ou das pessoas pode parecer algo impossível, mas e o que dizer de quando o que eu mais queria era encontrar refúgio de mim? 
Há certas questões que a gente empurra para debaixo do tapete. Mas tem vezes que o problema apenas cresce, aumentando de tamanho e gravidade. 
Há um turbilhão de sentimentos e pensamentos que brigam por exclusividade, atenção, importância. Se possível, tento escutar todos,  preferencialmente, um de cada vez.
Gostaria que existisse uma fórmula perfeita para resolver este tipo de situação. Talvez um mapa, um manual, qualquer indicativo que seja. Ou melhor ainda, que alguém pudesse me orientar. Ilusão minha.
Estava tateando barreiras internas nesta busca por respostas quando percebi que havia me perdido dentro de mim.
Fiquei tão preocupado em mudar, crescer, evoluir, me tornar alguém melhor que não parei para compreender o que fiz para chegar neste ponto.
A verdade está exposta como um ferimento aberto. Só que invés de sangue e vísceras, a substância que escorre do meu machucado é espessa e cinzenta. Um pedaço da minha alma. 
Enganei algumas pessoas por um tempo, usando essa máscara que não cobre meu rosto, mas tenta encobrir meu interior. Esta carapaça de ironia, frieza e indiferença que construí para me esconder dos outros quase levou minha essência ao esquecimento. Agora que estou consciente disto, preciso fazer algo. 
A tarefa inicial é deixar de fingir para mim mesmo. Depois, parar de fugir da responsabilidade que tenho comigo. 
O medo de ser machucado pelos outros me levou a dar preferência por virar as costas e me desprender das pessoas. É menos doloroso do que ficar neste ciclo de conhece-permanece-desconhece-desaparece. 
Talvez este seja o momento para crescer de verdade. Sei que dói, fere, às vezes chega a destruir, mas não posso mais tentar me manter neste limbo. Nesta estática de araque criada para me afastar de tudo que machuca. 
No início, esta atitude parecia ser adequada e pertinente, só que agora eu vejo que além de criar um labirinto interior, esta crosta de fingimento também afasta algumas pessoas que eu gostaria que ficassem comigo pelo tempo que for possível. 
Se esta jornada terá um final feliz, triste ou sádico não sei dizer. 
Mas devo me desprender dos grilhões que me acorrentam ao medo e me arrastam para o fundo da solidão. 
Eu escolhi agir assim e agora sou eu quem tem que lidar com os estragos que fiz. Espero que não sejam permanentes ou profundos suficiente para que estejam fora do alcance do reparo ou do perdão.
A voz se torna grave e firme, o maxilar tenso e o queixo, levemente erguido. Com uma expressão de desprezo e distanciamento digo: "Não me importo". 
O que eu realmente queria falar é que dói, machuca, incomoda. No entanto, engulo o protesto, mastigo e cuspo em forma de fingida indiferença. 
Era desta maneira que lidava com certas situações e pessoas, só que este comportamento não é verídico. Pode até ser válido em determinados momentos, mas não sempre e nem com todos.
Será que encarnei este personagem durante tantos anos que o ator acabou definhando por causa de tanta atuação? 
A resposta é incerta. 
Parece que a única certeza é que dei início a uma caçada na qual presa e caçador são a mesma pessoa. Eu. 
Não sou apenas minha própria vítima, na verdade, também sou algoz e possível herói. 
Dou alguns passos até a beirada do precipício que fica nos limites deste muro falso e olho para baixo. Vejo apenas escuridão. Tento dilatar visão e audição na tentativa de  ver ou ouvir algo. Depois de um minuto, ouço uma voz. 
É a minha a voz. Ela está fraca e quase não consigo distinguir as palavras que ela balbucia. Finalmente compreendo o que estou dizendo: 
Me ajuda. Corre. 
No último instante olho para trás a tempo de ver algo disforme correndo na minha direção. 
Sou eu, mas estou desfigurado pela raiva e pela surpresa. 
Eu vim até aqui para  impedir de me resgatar. 
Com aquela conhecida expressão de superioridade olho para o eu-guarda-do-muro e com um sorriso precoce de vitória pulo para o abismo. 
Claramente os três eus têm medo.
 O no poço teme a morte. O em missão de resgate tem receio de falhar. E a sentinela está aflito com a possibilidade da vitória. 
Todos estes anos de fingimento são úteis agora que integro esta operação para retirar o eu da prisão. Porque aprendi a engolir o pavor frente ao desconhecido. 
Apesar de o detento que me avisou do perigo estar com a esperança despedaçada, os outros dois são resistentes e só irão deixar a batalha quando o inimigo estiver liquidado.
Logo após o meu salto para a obscuridade, o vigia também pula. 
Num breve instante em que nos encaramos, os dois sabemos que esta é uma das guerras mais importantes que vamos enfrentar. 

Comentários

Minhas postagens mais vistas

Menos expectativas,mais felicidade

O Charmander é vermelho,

Girassol

Viajantes do Universo