O trajeto do guerreiro

@Pricelesssoul

Desapeguei de muitas pedras, peso que me impedia de ver outras paisagens. Havia uma névoa que bloqueava a luz, a fluidez e a essência de viver.
O espaço que surgiu foi ocupado por mim. Pelo autoconhecimento, desejos e expectativas próprias. Deixei de preencher o vazio com paliativos. Preferi fazer algo que não fazia há tempos, ouvir os sussurros da minha alma.
Ao longo dos meses uma armadura foi sendo forjada, diferente daquelas que vestia há tempos, além dos dessabores, esta continha aprendizado, amor e reciprocidade. Não era uma relíquia para me proteger de sentir, mas uma ferramenta de auxílio nas batalhas rotineiras.
A cada dia que passava, escuridão, frio e isolamento foram ficando para trás, sendo substituídos por calor e um sopro suave dos ventos de transição. A escalada foi árdua, porém, me sentia vivo e disposto a subir até o topo.
Alcancei o pico.
Apesar de as lutas continuarem sendo constantes, a armadura me ajudou muito.
Os conflitos se dividiam entre o que eu poderia enfrentar e o que fugia do meu alcance. Nenhum parecia tão difícil que eu não pudesse lidar. 
Em uma noite encontrei ele. Andarilho, acolhedor, interessante.
Após semanas de conversas até o nascer do sol e uma aparente cumplicidade, retirei o elmo que cobria minha cabeça. No decorrer dos dias, fui despindo as peças de proteção. Mesmo estando sem ela, me senti amparado por ele.
Os movimentos pareciam coordenados e planejados, as batalhas tornaram-se mais fáceis e eu me agarrei à possibilidade de enfrentar as adversidades ao lado de um parceiro.
Eu era adepto da guerra quase solitária, sem criar tantos laços que pudessem ser partidos, permitindo que apenas guerreiros seletos fizessem parte desta jornada.
Presumi que ele seri capaz de ficar além das horas necessárias para lidar com um inimigo em comum.
No entanto, em algum momento, seja por reflexo de uma vivência de derrotas ou simples desinteresse, ele decidiu que era tempo de partir, só.
A minha vestimenta ficou esquecida em algum campo de batalha qualquer. Fiquei vulnerável de uma forma que me assustou. Nem percebi a troca de uma armadura por outra. Confiei a ele a tarefa de amenizar os ferimentos dos obstáculos, porém, a maior dor foi causada por sua partida.
Mudo, imóvel e incrédulo observei ele desaparecer entre os escombros do confronto.
Não o culpo. Eu que depositei nele a expectativa de algo que deveria ser desempenhado por mim. Fiquei encantado, tanto que ignorei as chances de se tratar de uma aliança temporária.
Estou desarmado, perplexo e pensativo.
Tento compreender o que aconteceu enquanto os remédios amargos cicatrizam os cortes.
O escuro espreita meus pensamentos e lança sombras pontuais na minha alma. Sinto que este gosto ácido que ficou na minha boca se alastra por outros órgãos.
É irônico lembrar que o meu antagonista mais forte e astuto sou eu. Esta é uma lição que vai ficar entalhada em mim para nunca mais ser esquecida.
Me afastei momentaneamente das lutas e recupero o fôlego. Estou na beirada da montanha olhando para o pântano em que eu estava antes de subir até aqui. Centenas de metros separam o início da jornada e o atual lugar de reflexão.
Tentador é voltar para lá e me deixar ser totalmente consumido por ações e sensações autodestrutivas. Alimentando um desespero cuidadosamente tratado por mim.
No entanto, a calmaria, o frescor e a liberdade de ser o senhor da minha jornada são privilégios que não barganho.
Esta cicatriz começa a perder a cor de sangue e dói menos.
É final de tarde e os tons alaranjados e róseos do céu me hipnotizam e o arrancam dos meus devaneios por algumas horas.
Estou desarmado, porém, recupero a vontade de desbravar as planícies.
O sol dá lugar para as cores frias e o pontilhado de estrelas da noite.
Recolho meus pertences, respiro profundamente deixando o ar expelido levar as partículas de inconformidade e justificativas falhas.
Abraçar a derrota e aceitar os ferimentos não me torna um guerreiro fraco, apenas humano.
A umidade indica a existência de líquido nas proximidades, logo encontro um rio cristalino.
Conscientemente retiro toda a armadura e a coloco na margem.
Caminho até a substância cristalina alcançar a cintura, fecho os olhos, deito e flutuo.
Lutei em diversas batalhas, principalmente contra meus monstros internos.
Agora, no entanto, deixo a correnteza ser o guia temporário dos meus caminhos. 
Preciso desapegar da rigidez de guerreiro e aprender a fluir como a água.

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