Escombros




(sweven bee/We Heart It)



            Me encontro na frente do mesmo prédio em que te deixei. Aquele no qual teus lábios diziam “até logo” enquanto teus olhos e a tua alma falavam que nunca mais iriamos nos ver. O dia em que teu coração me deixou para sempre.
            Sem cimento, tijolos ou ferro, a construção é feita de memórias. Lembranças que, vez e outra, flutuam na minha mente e me puxam de volta para o passado. Este que parece ter acontecido há séculos, mas passou-se pouco mais de um ano. Tenho quase certeza de que a ação do tempo nas memórias é tendenciosa: a ferrugem corroeu parte dos bons momentos, mas os motivos de não trilharmos o mesmo caminho... esses seguem intocados.
            Teu sorriso, que brilhava tanto; tua presença, que era essencial para mim; tua voz, que embalava meus sonhos. HA! Deixaram um fraco rastro. Tudo o que ficou foram as lições, destas não me desfaço já que a reforma da minha faixada e do meu interior teve início depois do nosso término.
            O prédio que antes era nosso, já nem é mais meu. Tornou-se monumento de uma relação que não sobreviveu aos raios e tufões da vida. Apesar de restarem apenas escombros, peguei o costume de passar aqui para me lembrar de quem eu era, o quanto mudei e o peso que não quero mais carregar.
            Muito mudou, inclusive o endereço que escolhi para recomeçar. Lá, nas manhãs, o sol acaricia meu rosto, nas tardes, o vento refresca os pensamentos e à noite, as estrelas e a lua olham enquanto escrevo. Meus anseios, vontades, metas e objetivos são outros. O pouco já não me sustenta, o excesso me incomoda, um espaço vazio continua assim até que seja ocupado por algo que me alimente a alma. Claro que em algumas situações eu desmorono. Mas não como esta pilha de entulho que observo agora. Quando isto acontece, volto à planta, revejo métricas e simetrias, inspeciono o material de construção e mudo o que for preciso.
            Se necessário, destruo cômodos inteiros para que as expansões frequentes recebam a atenção devida. Depois de tantas alterações, demolições e deslizamentos da morada do meu espírito, entendi que para construir, montar e levantar, é imprescindível destruir, desmontar e cair. A queda não é sinônimo de derrota e a reformulação não é o equivalente à desistência. Pelo contrário, mudar é resistir, transformar é viver, deixar para trás o que não acolhe  e não agrega é saber ser feliz.

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