Vinte e quatro dias
"Nós vamos carregar pedaços de todos aqueles que nos construíram e nos romperam." - Atticus
(Imagem: @ZoeBlueDaisy/We Heart It)
É como uma doença, um vício, um parasita
que caminha debaixo da minha pele e causa desconforto constante.
Sete dias foi tempo suficiente para me
fazer acreditar que as suas palavras eram verdadeiras. Em uma semana eu fui
infectado e deixado para definhar na sarjeta das expectativas demolidas.
Os últimos vinte e quatro dias têm sido
difíceis. Na maior parte do tempo, o escuro, a solidão, a dor e o negativismo são
meus companheiros.
Pensei que você poderia me fazer feliz.
Errei.
Essa bagagem não deveria ser transferida para
outra pessoa além de mim. Coloquei nas tuas costas o peso do meu mundo e tu sucumbiu.
Foi embora, pisoteando na minha alma.
Não teve um desfecho digno, sem palavras,
sem motivo, nada. Apenas o silêncio.
Esperei. Chorei. Ponderei comigo, busquei
razões. Não as encontrei.
Senti como se qualquer vontade de viver
tivesse sido drenada de mim. Tinha dias que nem a luz do sol eu via. Certas
noites, simplesmente ficava deitado olhado o vazio enquanto as mesmas perguntas
martelavam minha cabeça.
Antes, sorri e coloquei meu coração nas
tuas mãos. Logo, você arrancou as artérias e esmagou de uma só vez. Deixou para
trás e, sangrando, fiquei com a tarefa de remendar, costurar, cuidar até ficar
curado.
Olhei no espelho outro dia. Vi apenas um
fantasma, uma fraca impressão do que sou. Desviei o olhar, não sabia o que era
aquilo me encarava. Era eu. Mas estava desfigurado, pálido, oco.
Me assustou o quanto uma partida levou de
mim. O tanto que você levou de mim.
Estava em um balanço em que, na ida,
queria te encontrar, e na volta, queria te apagar da minha memória.
Me questionei se realmente aconteceu. Foi
tão intenso, mas evaporou tão rapidamente que não ficaram rastros físicos. A única
prova da realidade é o resquício do que sinto.
As chagas da alma são as mais dolorosas e
persistentes. O tempo e o esforço são prescrições para tornar favorável esse
quadro patológico.
Cantarolar, era algo que eu fazia constantemente,
porém, até essa melodia foi silenciada. Os lábios mal esboçam um fraco sorriso,
que some em segundos.
No entanto, apresento melhoras. Respirei
fundo incontáveis vezes, sequei um punhado de lágrimas, aquietei os questionamentos
desnecessários. Retirei a terra que cobria a cova em que eu havia me enterrado.
Sofrimento e desilusões não podem ser
evitados, mas também não devem ser o único norte da existência.
Aos poucos, ganhei cor. Cada dia que
passa, o veneno vai sendo retirado das veias e a sanguessuga se enfraquece.
Desafiando a escuridão que me cercava, um
brilho pulsa no meu peito. A vontade de voltar às batalhas e o desejo de sair
da areia movediça me puxam para a realidade.
Ainda não está tudo bem.
Mas vai ficar.

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