Teu cheiro
Nada é mais memorável do que um cheiro. Um aroma pode ser inesperado, momentâneo e fugaz, e, ainda assim conjurar uma lembrança.
- Diane Ackerman
- Diane Ackerman
(Imagem: @veru_needy)
Eles
se encontraram em uma noite fria. Conversaram, trocaram olhares furtivos e experiências
que passaram nos últimos tempos. O filme deu espaço para as taças de vinho e o receio
do primeiro encontro foi substituído pelo seu primeiro beijo.
Depois
de alguns momentos conhecendo uma fração do jeito e das manias, eles se despiram
e deixaram as peças de roupas esquecidas, jogadas no chão. As peles se tocaram,
tornaram-se cúmplices naquela noite.
O cheiro
dele tomou conta do quarto.
Acordaram
na manhã seguinte com um aroma diferente no ar, um misto cítrico, amadeirado,
cínico e fugaz. Assim como os lábios, mãos e pernas, os cheiros também se entrelaçaram.
Ele
olhou para o lado e viu a silhueta debaixo das cobertas, o sol havia nascido
muitas horas atrás, já passava do meio-dia. Levantaram e se vestiram. Algo de
cumplicidade e sinceridade surgiu ali. Não mais como dois completos estranhos,
mas duas pessoas interessadas em saber o caminho que o destino poderia levar.
Trocaram
um último beijo. Foram até o portão e um observou enquanto o outro desaparecia
ao virar na esquina seguinte. Sorriu, balançou a cabeça, quase como se quisesse
espantar alguma expectativa ou desejo. Levou uma das mãos até as narinas:
apesar de o rapaz ter partido, deixou algo para trás. O cheiro dele ficou
impregnado no outro.

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