Impresso na retina

"Não é a despedida que dói, mas os flashbacks que vem depois"

(Imagem: @barbi_oros/We heart it)


De alguma forma, o passado, que ficava apenas na minha memória, encontrou uma maneira de escapar da minha mente e, agora, surge em frente aos meus olhos.
Ganhou vida própria. Não aceitou ser esquecido, quis se tornar presente e futuro. Decidiu que o tempo que já foi não era mais para ele.
Fecho os olhos e ele me encara de volta com um sorriso malicioso: ele sabe todos os meus segredos, desejos, sonhos e medos.
Abro os olhos e o passado está lá, impresso nas minhas retinas como uma fotografia, estático, sem vida e cor, apoiado na nostalgia do que já passou.
Ele agarra minhas bochechas com dedos frios e em decomposição. Tento virar o rosto e desviar o olhar, mas ele não quer dividir atenção e me obriga a encará-lo novamente.
A noite chega e a rotina se repete. 
Tem vezes que não sei mais o que é lembrança e o que é projeção dele.
O pretérito me aprisionou na minha própria alma. Aos poucos vou me perdendo e esquecendo.
Em algum momento me perdi no meu próprio caminho, a fé evaporou e parece ter me deixado para sempre.
Ele me afoga no ar puro. Narcisista, impede que eu siga aprendendo, conhecendo novas pessoas. Ele não quer que eu me apaixone, erre ou vá embora.
Tempos atrás, ele ficava escondido nas sombras, esperando a hora certa, mas agora... Agora ele controla boa parte dos meus passos.
No lugar onde deveria ser a boca, um rasgo repleto de dentes afiados e sujos, o passado sugou minha vontade de seguir em frente.
Em um tom quase inaudível e ameaçador, a voz dele ecoa dentro de mim - ele sussurra dizendo que nunca mais vou ser feliz como antes.
Tem dias que acredito nele.
Mas, durante os lapsos de sanidade vejo que, apesar do aprendizado, ele precisa dar lugar para novas histórias.
O tecido escuro, mal cheiroso e úmido com o qual ele cobriu meus olhos está perdendo cor, as correntes nos meus pulsos, enferrujando. 
Aos poucos me desvencilho dele, corro com o fôlego que ainda resta nos pulmões e pulo, uma queda em direção ao desconhecido.

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