Doze desejos
Os ponteiros do relógio vagarosamente
se movem em direção ao número doze, fogos de artifício cobrem o céu como flores
de pólvora e fogo, milhões de pessoas, agarradas em suas crenças e rotinas do final
do ano, têm certeza de que esta é uma nova página - um capítulo incrível de uma
história ainda desconhecida.
Em cima da escrivaninha polida, uma
lista de desejos para o próximo ano: fazer exercícios físicos, aprender um novo
idioma, passar mais tempo com a família... Porém, entre os doze itens rabiscados,
nenhum vestígio de exercitar o amor próprio, empatia, humildade, resiliência.
Fantoches das tradições,
acreditamos que, somente e unicamente, as cores das roupas, a lentilha, o cacho
de uvas, o punhado de simpatias e as ondas do mar, são capazes de realizar uma
tarefa que, naturalmente, é nossa – ser responsável por nossas ações e reações.
Legado da negação, a lista de desculpas para nos afastarmos da responsabilidade
é, ironicamente, tão longa quanto a dúzia de promessas.
Em algum momento nos disseram que “o
Universo sabe o que faz”. Então, sem questionar, para evitar a reflexão e a
dor, nos abraçamos nessa embarcação destinada ao naufrágio e saímos para
velejar nas águas desconhecidas da existência humana.
No entanto, esquecemos que qualquer
projeto é apenas um esqueleto inerte enquanto não houver empenho em soprar a
vida através do esforço e da vontade de concretizar o planejamento. Mas ainda
há tempo.
Antes do final das doze badaladas do relógio, é possível conversar
com a gente mesmo, abraçar cada centímetro do corpo, ouvir os sinceros desejos
da alma e, sem qualquer julgamento ou temor, convidar as incógnitas para o café da tarde do dia seguinte.
Ao contrário dos fogos do ano que entra,
a chama do viver tem brilho infinitamente mais
intenso. O corpo pouco se importa com as cores das roupas – o movimento físico
e espiritual são o que impulsionam as transformações. E, antes de escrever uma lista qualquer de desejos, é necessário desvendar a essência deste ser que habita em nós, não essa
criatura medrosa e que foge do imprevisível, mas o descendente da metamorfose
constante.

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