Almas nos espelhos
(Foto: @_cromy/We Heart it)
Moro em uma casa pequena, quase do tamanho de um kitnet: uma sala, uma cozinha, um quarto e um banheiro. Três desses cômodos têm um espelho. Só que até pouco tempo eu fingia que eles não estavam ali. No máximo, usava o espelho do banheiro para conferir se lavei bem o rosto pela manhã ou se ficou pasta de dente no bigode, depois de escovar os dentes.
Ficar muito tempo me olhando era muito desconfortável. Eu não queria olhar meu corpo, meu rosto, minhas roupas, meus olhos. Não queria me encarar. Apesar de o espelho conservar apenas um reflexo, aquele olhar ainda é o meu, a carne também.
Porém, depois de tantos anos me esquivando de espelhos, parei em frente a um, lá em casa, para me olhar de verdade. Despi a alma no reflexo. Pela primeira vez me encarei por tanto tempo. Toquei a pele, senti os cheiros, mergulhei nos rios profundos e turbulentos por trás dos meus olhos.
Poucos instantes depois que comecei a observar o meu reflexo, duas imagens se materializaram ali - minha essência foi dividida. Uma das minhas versões era amável, carinhosa, com um semblante calmo e acolhedor. Com voz pausada e clara, ela me disse que tudo estava bem, eu deveria me preocupar menos, que eu estou no caminho certo que precisava exercitar o amor próprio, algo que há poucos meses passou a estar mais presente na minha vida.
No entanto, o sorriso sincero foi dando lugar a um sorriso debochado, os olhos luminosos foram trocados por fendas escuras e o perfil relaxado foi se transformando em uma versão tensa e pesada - foi assim que conheci a personificação do meu eu sombrio. Meus medos, inseguranças, receios e pesadelos me olharam de cima a baixo, analisando cada centímetro do meu corpo, com ar de superioridade.
Mesmo que ele (eu) tivesse um olhar penetrante, analítico e obscuro, não desviei meus olhos e encarei de volta. Em poucas palavras, ele disse que eu jamais iria conquistar qualquer coisa, muito menos ser amado ou fortalecer o amor próprio - para ele, ninguém seria capaz de amar alguém fraco, carente e inseguro como eu. Engoli em seco, mas continuei firme. Os conselhos do eu anterior ainda ecoavam nos meus ouvidos e aqueciam o ar frio que desprendia do eu que agora falava no espelho. As ofensas e tentativas de me desmotivar não foram suficientes porque soavam mais como um esforço falho para esconder um ser com medo, que ataca evitando ser pego de surpresa.
Ao perceber isso, senti um misto de pena e compaixão pelo eu que agora fazia investidas para se desprender da superfície espelhada. O encarei com mais atenção e minha suposição se confirmou: por trás daquele personagem frio, mesquinho e irônico, se escondia uma alma machucada. Me abracei. E o eu no espelho desmoronou, revelando um olhar que, desesperadamente, pedia ajuda. Ele só precisava que alguém o olhasse, de verdade. Alguém que conseguisse desmontar aquela armadura. O eu no espelho foi murchando, fechou os olhos e se esvaiu.
Quando abri os olhos, não vi nenhum dos dois reflexos me olhando, mas um eu que aceita as duas essências, as sensações opostas, os pensamentos conflitantes e a ambiguidade do espírito. Afinal, sou um misto de vivências, expectativas, sonhos e tombos e as versões que vi continuam sendo apenas reflexos nos espelhos.

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