Uma tarde no chafariz


Chafariz do campus Zona Sul do Centro Universitário Ritter dos Reis, em Porto Alegre

Naquele dia eu estava completamente cansado. Esgotado psicologicamente. O corpo não aguentava mais. Era um final de semestre na faculdade que me consumiu muito porque os trabalhos ficavam sempre para a última semana e como sou muito bem organizado, deixei tudo para fazer no prazo final. Logo, as horas acordado e trabalhando eram mais do que o dobro das horas de descanso - dormir oito horas era utopia.

O clima estava na medida certa: uma brisa suave e o sol aquecia o suficiente, nem a mais e nem de menos. Um dia perfeito e equilibrado, completamente o contrário do que se passava comigo. Era como se a natureza estivesse zombando do meu desiquilíbrio. Quando cheguei na faculdade, fui até o subsolo pois tinha compromisso na agência de comunicação onde trabalhava durante algumas horas da tarde, antes de ir para a aula.

Exercia a função de repórter, editor, produtor e era coordenado pela professora que eu mais tenho proximidade e a que mais me ajudou no espaço acadêmico e também fora dele. Ela é o tipo de pessoa que abraça o mundo e não solta a mão de ninguém - ela vê bondade e potencial em praticamente todo mundo.

A pauta do dia era revisar uns textos. Aguardei alguns momentos, fui ao corredor para encontrar a professora, não a vi. Esperei mais uns trinta minutos, nada. O esgotamento tomou conta de mim, queria ir embora, dormir até que a vida voltasse ao normal. Nos meus delírios, ao fechar os olhos, tudo ficaria bem.

Juntei minhas coisas e saí da sala sem deixar recado ou avisar nada. Caminhei rapidamente até o chafariz do centro universitário. Lá, fiquei em pé por uns instantes observando o horizonte. "O tempo está maravilhoso para eu estar aqui, preso", pensei. Realmente cogitei a ideia de ir embora, mas afastei em seguida porque estava encerrando a semana de provas.

Minutos depois, uma colega pediu que eu voltasse porque a professora me chamava. Não atendi a solicitação. A garota rebateu e disse que se não retornasse, estaria fora da equipe. Alívio. Se não precisasse estar lá, seria menos uma tarefa para fazer. Respondi que não era mais o editor da agência. Eu amava trabalhar, mas eu não estava raciocinando direito. A colega viu que eu estava decidido e desistiu. Pouco mais de trinta minutos se passaram quando eu vi a silhueta da professora recortada pela luz solar.

Ela caminhava decidida até mim. Engoli em seco e a encarei.

Minha mente queria simplesmente descansar, mas a presença dela ali me deixou em alerta. Conheço a professora desde a primeira semana de aula e sempre tive muita simpatia por ela. Três anos depois, eu era o seu braço direito na faculdade e podia dizer que era uma das poucas pessoas com as quais ela compartilhava os devaneios pessoais, uma relação de reciprocidade e admiração mútua.

Ela me olhou no fundo dos olhos, firme. Retribuí.

Eu jamais iria esperar que ela fosse atrás de mim. As pessoas não costumam fazer isso. Afinal, é muito mais prático abandonar alguém do que ficar, tentar conversar e reaver o próprio modo de agir. Mas não ela. A professora.

Sua voz era contida, mas percebi um certo tremor. Não era raiva...era algo mais próximo da incredulidade e talvez uma ponta de decepção.

Uma grande parte da nossa história, omitida até aqui, é que essa professora me ajudou muito (e continua o fazendo). Além de questões acadêmicas, nos meus tumultos pessoais. No ano anterior eu quase larguei o curso por causa de uma insatisfação constante com a vida. Ela segurou as pontas por mim.

Conversou por horas em várias ocasiões e me sugeriu experimentar um pouco mais da faculdade, das oportunidades. Fora o ambiente estudantil, a professora me dava conselhos como “Acredita mais em ti” e “Não se cobra tanto”. Sem dizer os incontáveis: “Tu é bom. Segue em frente que vai dar tudo certo”.

Em uma fração de segundos o desalento que sentia deixou minha alma. Como que eu poderia estar agindo daquela forma justamente com aquela professora?

Minutos de conversa, ela me disse que estava cansada também, que não me atendeu imediatamente porque estava ocupada com demandas ainda mais urgentes. Sim, ela explicou a um aluno o motivo de não ter falado com ele antes. Porque é isso o tipo de coisa que ela faz: se importar com a maneira que as pessoas se sentem.

Obviamente que voltei para a agência.

Na verdade, eu ter ido para o chafariz virou uma piada interna. Toda vez que acontecia uma briga ou discussão, alguém dizia que “ia para o chafariz”. Eu ria junto com os outros, mas aquilo tinha outro significado para mim.

Nem sempre eu sou a pessoa mais agradável ou madura – algo que deve ter ficado bem claro nessa narrativa. Tem dias que duvido de mim e me torno portador da Síndrome do Impostor, aquela que faz a gente achar que não sabe fazer nada direito e que os acertos são uma sequência de eventos aleatórios sem qualquer relação com nossa competência.

No entanto, a professora deixou as atividades dela por alguns instantes para ir até o chafariz me encontrar. Pode ser que ela não saiba exatamente o que essa ação despertou, mas foi algo grandioso e único. A sensação de ser querido, de ter valor. Desde então, me vejo como uma pessoa por quem vale a pena lutar. Naquele final da tarde, a professora não estendeu a mão para mim no chafariz, ela me resgatou de um lugar obscuro, que aos poucos estava consumindo minha vontade de viver.




Obrigado por ir até o chafariz.

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