Ela não sabe.


alley photography of empty walkway between building during daytime
(Foto: alexey demidov)


Ela não sabe o quanto dela ficou em mim. Ela não sabe o quanto ela deixou pra trás. Sem ela, provavelmente eu nem estaria aqui, provavelmente eu nem seria assim. Ela foi quem me resgatou das masmorras, me buscou no chafariz, me acolheu quando eu fugia de mim.

Ela me colocou de frente comigo no espelho embaçado com a fumaça da insegurança e do medo. E ficou do meu lado até a ilusão se dissipar e eu ter a coragem de encarar o meu reflexo.

São incontáveis os conselhos, sem mensurar do tanto de vezes que as palavras delas fizeram desmoronar as muralhas que construí para me proteger do mundo. Ela pegou minha mão, afagou meus cabelos, me abraçou.

Ela não me deixou ir. Ela me fez ficar. Na verdade, ela foi além: me fez querer ficar. Ela me ensinou a lutar para ficar, continuar, persistir.

Ela me resgatou do furacão que eu mesmo instiguei.

Ela girou os gravetos secos no meu peito até que uma fagulha acendeu e me fez ascender. Depois, me ensinou a manter a chama sempre acesa e eu em ascensão.

E agora, por qualquer que seja o motivo sádico do destino, estamos longe.
No entanto, por mais quilômetros, fronteiras, barreiras ou distância que esteja entre a gente, a essência dela se mantém viva em mim, o fogo que ela ateou também.

Ela não sabe, mas desde o dia que segurou no meu rosto e me vi nos olhos profundos e inteligentes dela, ela soprou em mim um fragmento do ela é. Ela não sabe, mas eu sou o legado dela porque ela está impregnada no meu ser.

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