IN MEMORIAM
Eu nunca perdi alguém realmente importante pra mim. Meus pais ainda estão vivos e os vejo sempre, já que a relação com meus avós era escassa, a partida deles não me afetou. A morte é uma certeza. Talvez a única que se tenha na vida. Aliás, ironia essa: a máxima do viver é o morrer. Acredito que a solitária prece do ser humano em relação ao óbito é que o espaço entre o abrir os olhos pela primeira vez e fechá-los pela última, seja longo ou ao menos feliz.
Li trechos de História da Morte no Ocidente de Philippe Ariès, um historiador francês que escreveu sobre a relação dos ocidentais com o falecimento desde os tempos remotos até o final do século XX. Na época em que não existiam centros urbanos e os seres humanos se organizavam em tribos, a nossa espécie tratava o fim como algo natural e parte do ciclo da vida. O temor que os nativos sentiam da morte se devia ao fato de que ela representava menos braços para defender a aldeia quando fosse preciso. Era questão de sobrevivência. Ao longo da história, nosso relacionamento com as horas finais foi mudando de forma e a discussão sobre o tema foi sendo ocultada na mesma proporção em que o medo de morrer foi aumentando.
Atualmente estamos num momento em que fingimos que a morte não existe. O assunto é tabu, talvez até mais do que o sexo. Ignoramos uma ação tão humana quanto dormir ou chorar. A minha teoria é que agimos assim porque não sabemos o que (e se) tem algo no tempo-espaço que chamamos de "além". A morte é sorrateira como um leão à espreita, que aguarda o momento mais propício para atacar uma presa que bebe água às margens de um rio sem nenhuma outra preocupação além de se refrescar.
Morte é impotência. Por mais que existam medicamentos, tratamentos e alternativas para adiar o último dia, não há nada que possamos fazer para impedir que ele chegue. O Ceifador acaricia a vida antes de cortá-la permanentemente com sua foice. Ele passa os longos e ossudos dedos pela linha vital até escolher o ponto em que irá encerrar a vivência terrestre. Desliza a foice como um violinista habilidoso durante um concerto, reproduz melodia terrivelmente bela e no ápice da sinfonia, partimos. Não sabemos quando vamos morrer. Nem dia, nem hora, nem local, situação nem se vamos estar sozinhos ou acompanhados. Todo o processo é repleto de incertezas.
Aquela era uma fria tarde de sexta-feira no final de setembro. Apesar da baixa temperatura, o tempo estava agradável, os pássaros entoavam melodias da natureza e o sol começava a surgir entre as nuvens cor de chumbo. Em contraste com o clima, as pessoas que estavam lá além de carregar casacos, blusões e mantas, também levavam lágrimas, memórias e pêsames. Esta foi a primeira vez que fui em um enterro. O meu conhecimento da conduta mortuária se limitava ao uso do preto como a cor predominante das roupas.
Eu não sabia o que esperar da situação e muito menos como proceder. A tristeza era o sentimento que dominava a capela sete. Filhos, esposa, amigos e parentes próximos e distantes compareceram para se despedir do homem que estava no caixão coberto com flores e uma camiseta azul, favorita dele. Aliás, eu nunca tinha visto um corpo de perto. É surreal pensar que uma vida inteira pode caber numa caixa de madeira. Tudo que a pessoa foi, pensou, fez, desfez, construiu, desconstruiu, sonhou e amargou. Incontáveis memórias, desejos, experiências e lições. Tudo ali. Uma vivência de meio século prestes a entrar em combustão.
Mesmo que se prepare para o derradeiro final ou que se finja que ele nunca virá, a gente nunca sabe como agir na última hora. Será que sou intruso no pesar da família ou demonstro condolências e observo a situação de longe? A morte desperta as mais diversas reações, uns desmoronam como castelos de areia levados pelo mar e outros demonstram uma força interior que nem sabiam existir. O filho do homem que seria cremado é um rapaz decidido, forte e centrado, mas naquela tarde, ele parecia indefeso e pequeno, quase como uma criança que pede colo porque acredita que um abraço é suficiente para afastar todos os males.
Assim como a alegria, a tristeza também pode ser transmitida por meio das vias respiratórias. O luto da família se propagava por cada canto do cemitério e a dor era compartilhada entre os presentes. Alguns lembravam de histórias e contavam feitos, outro grupo lamentava o que o homem não teria oportunidade de viver. Entreouvi uma parente dizer que o falecido estava cansado do modo que vivia. Seria egoísmo querer que alguém sofra somente para que não sejamos privados de sua companhia? Não há uma resposta certa ou errada para este questionamento, mas acredito que a reflexão é válida. Nos agarramos à vida com tanta gana, que até quando o fim é inevitável, usamos todas as artimanhas disponíveis para não segurar a mão estendida de Caronte, o barqueiro de Hades que leva os mortos para o além.
Concordo com nossos ancestrais das tribos do início dos tempos, que acreditavam que morrer faz parte de estar vivo. Percebi que cada pessoa lida com o óbito de forma diferente, mas não vejo motivos para temê-lo. O luto é necessário e salutar, porém, se encerrar numa tristeza infindável é danoso para corpo e também para a alma. Sei que algumas perdas abrem feridas que irão latejar até o final dos nossos dias, mas já que ainda estamos vivos, nos resta aproveitar o tempo indeterminado que temos. Apesar das incertezas e certezas do momento final, a vida é oportunidade de evolução constante. Sofrimento, dor, solidão, saudade, luto e tristeza são parte do embrulho que recebemos ao nascer, mas junto com estes sentimentos, também herdamos alegria, compaixão, carinho e amor.
O quanto de cada um vamos carregar, depende de escolhas pessoais que envolvem como nos relacionamos com o outro e com nós mesmos. Assim como falecer, viver também é inevitável. Em homenagem aos que partem de forma abrupta como um fósforo aceso e aos que vão se despindo lentamente das vestes da existência, devemos viver da melhor forma possível. Aguçando os sentidos e deixando a brisa e o calor beijarem as bochechas e a testa. É essencial amar a vida, saborear cada momento, abraçar forte a possibilidade de estar presente aqui. Porém, o fio que nos liga à carne vai se desfazendo com os anos e quando a travessia final tiver início, é preciso ter consciência de que
devemos partir. Chegou a hora de cumprimentar a morte como um velho conhecido que veio levar o amigo para mais uma aventura, desvendando os mistérios da próxima jornada.
Li trechos de História da Morte no Ocidente de Philippe Ariès, um historiador francês que escreveu sobre a relação dos ocidentais com o falecimento desde os tempos remotos até o final do século XX. Na época em que não existiam centros urbanos e os seres humanos se organizavam em tribos, a nossa espécie tratava o fim como algo natural e parte do ciclo da vida. O temor que os nativos sentiam da morte se devia ao fato de que ela representava menos braços para defender a aldeia quando fosse preciso. Era questão de sobrevivência. Ao longo da história, nosso relacionamento com as horas finais foi mudando de forma e a discussão sobre o tema foi sendo ocultada na mesma proporção em que o medo de morrer foi aumentando.
Atualmente estamos num momento em que fingimos que a morte não existe. O assunto é tabu, talvez até mais do que o sexo. Ignoramos uma ação tão humana quanto dormir ou chorar. A minha teoria é que agimos assim porque não sabemos o que (e se) tem algo no tempo-espaço que chamamos de "além". A morte é sorrateira como um leão à espreita, que aguarda o momento mais propício para atacar uma presa que bebe água às margens de um rio sem nenhuma outra preocupação além de se refrescar.
Morte é impotência. Por mais que existam medicamentos, tratamentos e alternativas para adiar o último dia, não há nada que possamos fazer para impedir que ele chegue. O Ceifador acaricia a vida antes de cortá-la permanentemente com sua foice. Ele passa os longos e ossudos dedos pela linha vital até escolher o ponto em que irá encerrar a vivência terrestre. Desliza a foice como um violinista habilidoso durante um concerto, reproduz melodia terrivelmente bela e no ápice da sinfonia, partimos. Não sabemos quando vamos morrer. Nem dia, nem hora, nem local, situação nem se vamos estar sozinhos ou acompanhados. Todo o processo é repleto de incertezas.
Aquela era uma fria tarde de sexta-feira no final de setembro. Apesar da baixa temperatura, o tempo estava agradável, os pássaros entoavam melodias da natureza e o sol começava a surgir entre as nuvens cor de chumbo. Em contraste com o clima, as pessoas que estavam lá além de carregar casacos, blusões e mantas, também levavam lágrimas, memórias e pêsames. Esta foi a primeira vez que fui em um enterro. O meu conhecimento da conduta mortuária se limitava ao uso do preto como a cor predominante das roupas.
Eu não sabia o que esperar da situação e muito menos como proceder. A tristeza era o sentimento que dominava a capela sete. Filhos, esposa, amigos e parentes próximos e distantes compareceram para se despedir do homem que estava no caixão coberto com flores e uma camiseta azul, favorita dele. Aliás, eu nunca tinha visto um corpo de perto. É surreal pensar que uma vida inteira pode caber numa caixa de madeira. Tudo que a pessoa foi, pensou, fez, desfez, construiu, desconstruiu, sonhou e amargou. Incontáveis memórias, desejos, experiências e lições. Tudo ali. Uma vivência de meio século prestes a entrar em combustão.
Mesmo que se prepare para o derradeiro final ou que se finja que ele nunca virá, a gente nunca sabe como agir na última hora. Será que sou intruso no pesar da família ou demonstro condolências e observo a situação de longe? A morte desperta as mais diversas reações, uns desmoronam como castelos de areia levados pelo mar e outros demonstram uma força interior que nem sabiam existir. O filho do homem que seria cremado é um rapaz decidido, forte e centrado, mas naquela tarde, ele parecia indefeso e pequeno, quase como uma criança que pede colo porque acredita que um abraço é suficiente para afastar todos os males.
Assim como a alegria, a tristeza também pode ser transmitida por meio das vias respiratórias. O luto da família se propagava por cada canto do cemitério e a dor era compartilhada entre os presentes. Alguns lembravam de histórias e contavam feitos, outro grupo lamentava o que o homem não teria oportunidade de viver. Entreouvi uma parente dizer que o falecido estava cansado do modo que vivia. Seria egoísmo querer que alguém sofra somente para que não sejamos privados de sua companhia? Não há uma resposta certa ou errada para este questionamento, mas acredito que a reflexão é válida. Nos agarramos à vida com tanta gana, que até quando o fim é inevitável, usamos todas as artimanhas disponíveis para não segurar a mão estendida de Caronte, o barqueiro de Hades que leva os mortos para o além.
Concordo com nossos ancestrais das tribos do início dos tempos, que acreditavam que morrer faz parte de estar vivo. Percebi que cada pessoa lida com o óbito de forma diferente, mas não vejo motivos para temê-lo. O luto é necessário e salutar, porém, se encerrar numa tristeza infindável é danoso para corpo e também para a alma. Sei que algumas perdas abrem feridas que irão latejar até o final dos nossos dias, mas já que ainda estamos vivos, nos resta aproveitar o tempo indeterminado que temos. Apesar das incertezas e certezas do momento final, a vida é oportunidade de evolução constante. Sofrimento, dor, solidão, saudade, luto e tristeza são parte do embrulho que recebemos ao nascer, mas junto com estes sentimentos, também herdamos alegria, compaixão, carinho e amor.
O quanto de cada um vamos carregar, depende de escolhas pessoais que envolvem como nos relacionamos com o outro e com nós mesmos. Assim como falecer, viver também é inevitável. Em homenagem aos que partem de forma abrupta como um fósforo aceso e aos que vão se despindo lentamente das vestes da existência, devemos viver da melhor forma possível. Aguçando os sentidos e deixando a brisa e o calor beijarem as bochechas e a testa. É essencial amar a vida, saborear cada momento, abraçar forte a possibilidade de estar presente aqui. Porém, o fio que nos liga à carne vai se desfazendo com os anos e quando a travessia final tiver início, é preciso ter consciência de que
devemos partir. Chegou a hora de cumprimentar a morte como um velho conhecido que veio levar o amigo para mais uma aventura, desvendando os mistérios da próxima jornada.

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