PROMESSA E INCERTEZA
(Foto: We Heart It)
Acordar numa tarde de domingo depois de passar o sábado de baixas temperaturas caminhando na orla da praia e então fazer uma razoável quantidade de pipoca para assistir filmes durante o resto do final de semana. Este convite é tentador para mim, porém, ele vem acompanhado de diversas dúvidas geradas por sua intenção de me fazer feliz. Por que eu? Tem tantos outros por aí...Sei que as pessoas não são iguais, tampouco somos tão únicos quanto nos fazem acreditar. Depois de enfrentar um forte temporal interior, me acostumei com a ideia de navegar sozinho, ser capitão e vento das velas do meu barco. Alguns podem achar triste, mas se eu não souber velejar sozinho, como esperar que outro faça isso por mim?
Suas palavras parecem sinceras. Percorro seu olhar em busca de um movimento estranho que indique alguma razão maléfica para você querer estar comigo. Provavelmente não há. Porém, todas as vezes que já ouvi promessas similares ecoam na minha cabeça e eu simplesmente não esboço reação . Te olho por alguns segundos e continuo a conversa como se você não tivesse dito nada. Em contraste com a aparente indiferença do meu rosto, minha alma fica alerta e em guarda. Estou pronto para desaparecer outra vez. Sou habilidoso em sumir sem olhar para trás. Corto laços de maneira banal, como quem desfaz um nó de cadarço. Contudo, fico. Não sei ao certo o motivo, mas continuo aqui. Deve ser a curiosidade de entender o seu interesse em mim. Não me sinto preso a uma obrigação sem sentido em estar com alguém só para evitar acordar sozinho pela manhã. Me pergunto novamente o porquê da sua intenção
Tenho um coração remendado, amarrado com trapos, desconfiado e incrédulo. Seria mais prático você "escolher" alguém menos ferido, não? Na verdade, carrego algumas lesões que acabaram de fechar. Nem estão opacas ainda, são cortes rosados, resultado da minha crença em mentiras reais e da desconfiança em verdades questionáveis. "Escolher" alguém quando se trata de sentimentos é improvável. Acredito que a única escolha é ser ou não feliz.
Estou escorado em uma rocha aqui em cima e olho você escalando por algumas pedras pontiagudas e com limo. Nem sempre observo sua jornada sem interferir. Às vezes, uma palavra expelida sem pensar ou uma hipótese acusatória te fazem olhar para onde estou firmado de braços cruzados e questionar se o esforço é válido. Perplexo, te vejo limpar o suor da testa e não desistir. "Eu quero continuar, mas não vou sozinho. Só posso ir até uma parte do trajeto", ouço você dizer enquanto limpa os cortes e sujeira das mãos para então voltar a subir. Aquelas palavras me pegaram desprevenido e desfizeram a indiferença do meu rosto. Me pergunto mais uma vez, por que eu. Tenho tendências a questionar e tentar racionalizar tudo. Porém uma hora dessas eu vou ter que que aceitar que nem tudo tem lógica. Principalmente sentimentos. É por isso que tenho certa relutância com eles...?
Se mesmo depois de tantos "poréns" e "e ses", você ainda quiser continuar a escalada, só peço que tenha paciência. Sinto como se estivesse desbravando águas profundas e desconhecidas numa noite de neblina sem farol para me guiar. Posso naufragar e morrer afogado na tentativa de mergulhar nas tuas palavras. Ou, talvez, esta névoa composta por moléculas de indecisão se dissipe e o sol do amanhecer traga luminosidade, lucidez e calma num sábado frio.

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