A fera que habita em mim
Sem objetivo traçado, apaguei a fogueira
e continuei a jornada. A floresta ocupou a paisagem durante os três dias
seguintes. Então foi substituída por uma estrada ladeada por uns tufos de grama
amarelada. Tive que aprender a caminhar sozinho novamente. As horas da noite eram as mais
difíceis, pensamentos berravam nos meus ouvidos. Minha sanidade estava sendo consumida lentamente.
Eu passava por umas ruínas quando
aconteceu. Meus joelhos cederam e as lágrimas escorreram pelo meu rosto e deixaram
círculos escuros na areia. Há seis meses saí das águas e atravessei a floresta.
Ainda não decidi o que fazer, nem tentei encontrar um caminho de volta. Vez ou
outra enfrentava um monstro, mas nunca o que habitava minha pele. E agora
ele reivindicava o que julgava ser sua propriedade, eu.
Mergulhei em mim. Não tinha refúgio
ou parceiro. Era eu versus o resto. Engoli em seco. A decadência e a solidão exalavam
um cheiro fétido, como se a morte soprasse carinhosamente minha nuca. Algo se
mexeu no escuro. Por muito pouco não me rendi. Considerei seriamente a
possibilidade de me deixar ser estraçalhado por aquela fera e assim também ser apagado
da existência.
A vontade de continuar lutando e
seguir a jornada não me deixaram morrer. Um ser gigantesco pulou na minha
direção e me derrubou. Dentes ensanguentados indicaram que aquele bicho alimentava-se
com ferocidade. Os olhos amarelados tinham um brilho malicioso e traziam a
certeza de que seriam a última coisa que eu veria. Feras assim não são comuns,
aliás, nunca vi uma igual. Mas algo ali era familiar. Apesar da aparência, percebi desespero e súplica naquele ser, medo até. Sentimentos que têm sido minha companhia desde que fui ferido na minha primeira batalha, quando minha armadura foi perfurada, não por uma lança ou estaca, mas por palavras duras e uma partida às pressas.Com esforço descomunal empurrei o animal para uma parede pontiaguda.
Antes que percebesse o que estava acontecendo,
eu e a criatura deixamos escapar um berro idêntico. Uma parte de mim foi
arrancada naquele instante. O bicho sangrava e urrava, parecia que eu sentia a
mesma dor, desmaiei. Quando recobrei a consciência, a fera estava
morta. Na verdade, algo curioso acontecia diante dos meus olhos: a carcaça do
monstro encolhia e uma figura humana tomava seu lugar. Eu era o bicho que se
alimentava de mim, eu era o parasita, eu consumia minhas esperanças.
O ser vivo que renascia era frágil,
pálido e parecia quebradiço. Nas semanas seguintes eu o alimentei. Enquanto ele
ficava mais corado e vivo, eu me sentia melhor, e o ambiente perdia o cheiro
mórbido. Quando ele estava forte para caminhar, o tirei de lá. Aos poucos fomos
abandonando a escuridão. Havia meses que eu não via o sol ou sentia meu corpo acariciado
pelo calor.
Ele abriu os olhos com certa dificuldade,
olhou ao redor e entrelaçou os dedos nos meus. Chorei enquanto ele soluçava com
a cabeça deitada no meu peito. Pedi desculpas por ter feito ele passar por tudo
aquilo. Ele agradeceu por tê-lo salvo. Nos encaramos em um entendimento mútuo,
uma parceria que se estenderia por todas as vivências, nascia ali. Este era um
guerreiro que iria lutar ao meu lado nas batalhas que viriam.

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