A floresta da solidão
O
rio me trouxe até aqui. Depois que eu deixei meu armamento e armadura às
margens do rio, me permiti ser guiado para o desconhecido. Durante algumas
horas fechei os olhos e me despi dos pensamentos, minha intenção era ficar fora
de batalhas por uns tempos. A água estava muito fria e era cristalina o
suficiente para ver o fundo pedregoso do rio. Apesar da temperatura, nunca me
senti tão agradavelmente pertencente a algo. Seria esse meu lugar? Minha última
(e contínua) batalha seria flutuar incansavelmente por águas gélidas?
Depois que deixei aquele guerreiro para trás, usei
toda concentração para não alimentar as perguntas que me comiam vivo. Certamente
eu queria que ele voltasse, secretamente esperava vê-lo novamente,
mesmo sabendo que nada mudaria. Não me joguei no mundo por causa dele, o motivo
da minha partida fui eu. Lidar com a divergência de caminhos indicou que algo
em mim não estava certo.
Uns poucos raios de sol atravessavam
as nuvens cinzentas e também minhas pálpebras. Já havia me acostumado com a
água, porém, senti que meu percurso continuaria por terra. Abri os olhos e firmei
os pés no fundo do rio. A água continuou seu caminho, passando por mim e indo
em direção ao infinito.
Por alguns instantes imaginei o
trajeto daquele rio. Será que terminaria logo depois da curva ou iria percorrer
até o final dos tempos? Eu poderia buscar esta resposta e voltar ao corpo d’água,
afinal, o barulho do líquido iria abafar as dúvidas, que ecoariam mais baixo na minha mente. Não. Renunciei este
pensamento e segui.
Árvores centenárias formavam uma
floresta que era habitada por alguns animais. Continuei caminhando até encontrar uma clareira na qual umas pedras enegrecidas indicavam que alguém tinha
feito uma fogueira. Passei a noite ali. Não posso dizer que descansei porque
enquanto observava o sol se pôr, perdendo as cores rubi e dando lugar a um véu
azul marinho e estrelas prata, planejei meus próximos passos.
Os sons da floresta e da madeira
sendo queimada deram espaço ao tornado que se erguia dentro de mim. A batalha
continua. Ela nunca cessa. É constante. Infinita como o ciclo do rio que deixei
para trás mais cedo: evapora, torna-se cumulus nimbus, e volta, seja no mesmo lugar
ou em outro, mas retorna e inicia nova era.
A madrugada trouxe consigo orvalho e o
desespero da solidão. Até então, eu só havia lutado em guerras externas e muitas
vezes acompanhado. Desta vez, no entanto, me vi sozinho. O fantasma que sempre
esteve se esgueirando nesta minha caminhada era o medo. Medo de ouvir o que sussurrava
em algum canto da minha alma. Medo de descobrir que ele me deixou porque
percebeu que existe algo terrível adormecido em mim.
Respirei o ar com aroma de terra
úmida e tomei posição de prece. Murmurei pedindo ajuda. Uma direção de
qualquer um que estivesse me ouvindo. Talvez ninguém viria me socorrer já que
eu estava perdido, tanto do meu bando, quanto da minha consciência. Desejei ser
frio, não sentir, não pensar, não ter medo, não chorar, conseguir viver
independente de qualquer um. Queria ser forte. Mas desabei. Um choro sentido, pesado
com temor, durou longas horas. Adormeci ao lado da fogueira que, apesar de estar
com labaredas vivas, não me esquentou.
Quando acordei, horas mais tarde, senti
uma leveza no peito, quase como se uns nós da garganta fossem desfeitos, amenizando
o aperto no coração. Sentei em algum tronco qualquer e fiquei imóvel durante
uns minutos. Estava desconcertado por não possuir respostas, estratégias,
planos, caminhos, qualquer coisa. “E agora?”, perguntei, primeiro para mim,
depois, gritei para a floresta que, obviamente, não respondeu.
Mesmo que o rio tivesse levado a
minha rigidez consigo, as dúvidas ficaram. As frustrações, complexos... Eu era
um vaso sujo e com rachaduras. A água tirou a camada de barro que me cobria, mas
as fendas continuavam aqui. O rio não era meu lugar, tampouco esta floresta. Decerto
eu não pertenço a nada. Um erro do universo, sem laços, passado, presente ou
futuro.

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