Eu não disse adeus
EU NUNCA FUI
REALMENTE BOM COM ADEUS
O tempo é de mudança.
Com suas mochilas nas costas,eles seguem seu caminho.
Procuram novas aventuras para viverem,novas vidas para descobrirem,novos ventos para guiarem sua nova jornada.
Sua bagagem está abarrotada de medos,tristezas,esperanças,escovas de dentes,roupas,alegrias e tudo mais que for necessário para recomeçar.
Os fantasmas do passado ainda os assombram.
As correntes que os prendiam estão mais soltas,mas as marcas roxas continuam nos tornozelos e nos pulsos.
O trapo de pano preto que prendia seus olhos foi tirado aos poucos.
E foi aos poucos que eles viram o quão deslocados eles estavam.
Aqui não é o lugar deles.
Eles não pertencem à isto.
Há muitas dores e lágrimas fixados no concreto.
Há pouco sol,há pouco ar,a luz quase não passa pelas cortinas.
O verde das plantas se encontra a quilômetros.
Isso é uma selva de pedra onde não existe o rei-leão.
Todos querem ser reis.
Todos lutam pelo poder.
Eles se sentem mal aqui.
Sua alma implora desesperadamente por um fuga.
Ela quer sair daqui.
Assim como o coração e as pernas deles.
O último a ser convencido foi o Cérebro.
Esse sim é um adversário digno.
A guerra durou anos a fio.
Cerca de cinco anos.
Eles tinham uma estratégia:
Fingiam que esqueciam da ideia de partir e depois de alguns dias,eles voltavam a pensar nela de novo.
Mas o orgão pensador também tinha um plano:
Ele fingia que acreditava que eles tinham esquecido da ideia de partir e quando eles voltavam a pensar nela novamente,ele atacava esses pensamentos com todas suas forças.
Eles os bombardiava com respostas pra cada dúvida sobre ficar no mesmo lugar.
Isso é o que o tornava um adversário à altura.
E essa batalha seguiu-se pelos próximos anos.
Mas foi então,que numa certa manhã de verão que o Coração juntou-se à luta.
Foi-se mais uns dois anos.
E finalmente,quando todos os adversários estavam se cansando,o lado do Coração ganhou.
Ele tinha mais razões para querer partir.
Sentia-se sozinho,apertado,dolorido.
O Cérebro só tinha o Orgulho do seu lado.
Não queria admitir que tinha errado.
Que a decisão de vir para cá foi um engano.
E as preparações começaram.
Erros foram encaixotados.
Esperanças foram embaladas.
Medos foram sendo postos em sacos de lixo preto e colocados do lado de fora de casa.
Nesta tarde eles se foram.
Talvez para sempre.
Provavelmente.
E eu não os acompanhei na despedida.
Quando alguém que a gente ama se vai,um pedaço da gente vai junto.
Um vazio que não se preenche.
Uma perda sem reparos.
Eu apenas fiquei no parapeito da janela os observando.
E os poucos,seus passos deixaram de ecoar no asfalto e suas formas desapareceram quando eles viraram na próxima esquina.

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