Incoerência Existencial
por Ingrid Fraga
Eu amo ele. Amo mesmo, de um jeito totalmente imperfeito e de todos os jeitos possíveis que se possa amar alguém. Demorei para aceitar, afinal já está tudo acabado mesmo, de que adianta confirmar essa verdade... trágica? Não, esse adjetivo é que é trágico demais; acho que só devemos usá-lo em situações que descrevam momentos entre a vida e a morte de alguém e não sobre amor... Usar para descrever um amor, que simplesmente acabou e não matou ninguém, seria sentimentalismo barato, tudo o que eu não quero. E agora, querendo dar continuidade ao texto, me perco em palavras, me perco em mim, não sabendo o que escrever, usando o meu sentimentalismo barato que tanto odeio, não querendo parecer ridícula mesmo já sendo, tendo tanto para escrever e tão pouco vocabulário para me expressar, porque nem o Aurélio poderia me fornecer uma palavra que unisse tudo o que sinto agora, todo o meu desejo de mostrar o que sinto. Penso sobre a minha escolha profissional, quero ser escritora e sofro de frequentes brancos, fujo ao tema agora, isso seria um zero em uma dissertação. Penso em tantas coisas e tudo se choca e tudo se quebra e tudo se desfaz e tudo perde a pontuação e tudo morre menos o sentimentalismo barato e essa mania de ser ridícula não querendo ser, querendo ser mais, querendo mudar e cometendo os erros de sempre, magoando, me omitindo, me fechando, me achando boa demais para essas pessoas corruptas, e eu sou corrupta, e eu sou hipócrita e eu sou eu e nada mais. Acabo não tendo certeza de nada no fim das contas; quando acho que sei de alguma coisa vem algo que me faz perder o equilíbrio, estilhaçando os meus ideais e rompendo toda a integridade que eles possuíam, o mundo perde o sentido e eu não sei de nada. Escrevo bem? Tem sempre alguém que escreve melhor. Posso ser mediana, mas nunca excelente... Nunca achei algo em que me sentisse excelente. Queria estar com ele, sabe? E não choramingando aqui. Meus textos não tem nexo e mudo o assunto constantemente. Talvez, se tivesse nascido uns noventa anos atrás pudesse ter tido algum tipo de sucesso no modernismo literário que engoliu o brasil com seus poemas cotidianos e com certa ausência de significado sentimental, as coisas simplesmente eram daquele jeito, errar o português era proposital e revolucionário, eu iria poder esconder muito bem a minha ignorância (ou descompromisso com a linguagem). Penso se ele pensa em mim, se dorme às vezes com a minha camiseta, se já chorou pelas coisas terem acabado, porque sinceramente a impressão que tenho é que tudo foi interrompido, embora provavelmente só seja eu achando que todas as coisas acontecem rápido demais. Minha culpa, minha insegurança, minha chatice, meu ciúme, meu jeito de querer saber cada vez mais quando ele só queria se calar e permanecer no conforto silencioso de sua mente, meu eu, meu erro, minha mania de querer conversar o tempo todo, minha mania de me achar insuficiente. Sabe de uma coisa? Vou ir dormir.

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