ela

Crédito da imagem : Pinterest


Aquele era um dia nublado.
O solo, úmido e frio.
Ela acordou com o ar gélido entrando pela janela e tocando seu rosto.
Sentou na cama e olhou ao seu redor.
O quarto em que ela dormia desde criança não era mais acolhedor.
Antes, aquele era o santuário em que se refugiava, agora tornara-se sua prisão.
Apesar de seu cabelo possuir um tom rosado, a essência dela estava escura.
Ela levantou da cama e foi até o banheiro. Lavou o rosto e saiu de casa.
Aquela cidade era desconhecida para ela. 
Então, passou a ser familiar e até um tempo atrás, seu lar.
Porém, tudo havia mudado.
Ela cresceu de uma forma que não cabia mais ali.
Só ela que não via.
Ela ainda busca quem é.
Mas algumas partes estão sufocadas por suas inseguranças e medos.
Uma crosta áspera e obscura que vem sendo alimentada por anos. E não só por ela, mas por algumas pessoas que fazem parte da sua convivência.
Esse concreto foi plantado em sua mente. 
Escorreu pelos olhos, apertou a garganta, envenenou o coração e adoeceu a alma.
Ela caminhou por alguns quilômetros, desviando das poças de água deixadas pela chuva do dia anterior até chegar no seu novo santuário.
Ali, ela pensava. Conversava. Xingava. Brigava. Chorava. Sorria.
Ali, não tinha nada que a prendesse nem que a repreendesse .
Ali, sua alma adquiria um brilho rosado e o concreto começava a esfarelar.
Nesse dia, ela andou um pouco mais e se deparou com um penhasco.
O ar úmido beijou suas bochechas e as deixou rosadas.
Esse sopro frio acelerou as batidas de seu coração e quebrou os últimos pedaços de entulho.
Ela foi até a beirada e sem pensar pulou.
Ela não caiu.
Sua vontade de partir foi maior que o pavor de ficar.
Seu desejo de voar foi mais forte que o punho da gravidade.
E assim, naquele dia nublado, ela partiu.
Para trás, ficaram o quarto, a cidade e tudo aquilo que impedia ela de ser.
Deixou tudo.
Ela saiu daquele casulo que a prendeu por anos e deu asas para si.
Seus cabelos magenta ondulavam com o vento.
Seus olhos refletiam o brilho da espírito.
Seus lábios apenas sorriam.
Levou apenas sua essência e os tons róseos da alma.






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