Vazio
Ele se foi.
Ela estava ali todos os dias.
Porém, agora reside apenas na nossa memória.
Eles viveram mais dias ao nosso lado
do que a gente consegue lembrar.
E ao partirem, levaram um pedaço da
gente junto.
A gente se sente dono deles. Como
se eles nos pertencessem.
Como se eles nunca fossem partir.
Como se tudo o que vivemos fosse
durar para sempre.
Mas o para sempre apenas tem a
longevidade que precisa.
A gente que não entende.
A gente que não aceita.
Somos teimosos. Chora. Briga.
Esperneia. Se fecha pro mundo.
Porém nada disso resolve.
A gente tem mesmo é que engolir o
enrosco na garganta, secar as lágrimas na manga da camiseta e continuar.
Respirar fundo e ir.
Eles partiram. Mas a gente ainda
está aqui.
Outros ainda virão.
A gente fica aos cacos toda vez que
tem que dizer adeus a alguém que ama..
Virar para o lado e se deparar
apenas com os lençóis sem mais alguém ali dói.
Segurar o impulso de ligar no meio
da noite para conversar sobre o dia é o
décimo terceiro trabalho de Hércules.
Parte o nosso coração passar de “tudo” para “nada” em dias.
Rasga por dentro quando outra
pessoa constrói as memórias em nosso lugar.
Dilacera ver quem nos deixou ser
feliz sem a gente.
Nos sentimos mínimos como um grão
de areia.
Mas na verdade somos infinitos como
os grãos de areia.
Ninguém tem o dever de estar aqui do início ao fim.
Às vezes as interrupções não são
fins e sim começos.
Mas por meses o tempo fica cinza
dentro da gente.
O céu fica negro. O solo árido. E a
gente amargo.
E assim vai continuar sendo.
As nuvens só irão se dissipar quando
a gente finalmente compreender.
Compreender que aquele espaço não é
um vazio.
As pessoas têm o direito de seguir
o caminho sem a gente.
Elas podem querer ficar sozinhas ou
simplesmente pensarem que não somos mais aptos.
E assim, se elas seguem, a gente tem que seguir , porque a vida segue.
Dizer adeus é como um sol que
apenas se põe.
Porém, mais dolorosas que as
partidas são os “até mais” que a gente
sabe que não levarão até um novo “olá”.
Talvez, o sol não nasça no dia
seguinte, mas a gente renasce.
A ferida só começa a sarar quando a
gente entende que não estamos vazios.
A gente tem que levantar e
continuar amando.
Apesar de tudo. Apesar de sofrer.
Apesar de estar despedaçado. Apesar de a gente chorar mais do que sorrir.
Não somos vazios.
Somos repletos de viver.
Somos as cicatrizes, as marcas, as
escuridões, as claridades, as emendas e rompimentos.
Somos tudo.
Tudo o que já passamos e todos que
já passaram.
Somos tudo o que já vivemos, o que
ainda vivemos e o que ainda vamos viver.
Somos repletos.
Somos perpétuos.
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