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Cela no subsolo

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Por trás dessa tua testa franzida e expressão carrancuda se esconde um ser que se encanta com um sorriso espontâneo, sente a brisa do final da tarde como um carinho no rosto e enxerga os mais singelos sinais de afeto. Eu olho nos teus olhos e encaro uma labareda acesa, dançando em tons vivos de amarelo e vermelho. Mas te pergunto: por que tu foge tanto? Do que tu tem medo? Aliás, de quem tu tem medo?  Toda vez que alguém se aproxima demais, tu liga um tipo de alarme interno que aciona teus portões, muralhas com arame farpado e cacos de vidro que são vigiados por feras que estraçalham os intrusos. Ninguém pode chegar perto. Ninguém pode ver o que se encolhe por trás de ti, desse personagem inabalável e inacessível.  Talvez, tu pense que isso é proteção, é sobrevivência. E eu te entendo, sabe. Tua pele não está marcada por tantas cicatrizes e marcas, porém, o teu coração e tua alma sim. E são esses remendos sombrios que sussurram nos teus ouvidos. Eles dizem qu...

Ela não sabe.

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(Foto: alexey demidov) Ela não sabe o quanto dela ficou em mim. Ela não sabe o quanto ela deixou pra trás. Sem ela, provavelmente eu nem estaria aqui, provavelmente eu nem seria assim. Ela foi quem me resgatou das masmorras, me buscou no chafariz, me acolheu quando eu fugia de mim. Ela me colocou de frente comigo no espelho embaçado com a fumaça da insegurança e do medo. E ficou do meu lado até a ilusão se dissipar e eu ter a coragem de encarar o meu reflexo. São incontáveis os conselhos, sem mensurar do tanto de vezes que as palavras delas fizeram desmoronar as muralhas que construí para me proteger do mundo. Ela pegou minha mão, afagou meus cabelos, me abraçou. Ela não me deixou ir. Ela me fez ficar. Na verdade, ela foi além: me fez querer ficar. Ela me ensinou a lutar para ficar, continuar, persistir. Ela me resgatou do furacão que eu mesmo instiguei. Ela girou os gravetos secos no meu peito até que uma fagulha acendeu e me fez ascender. Depois, me ensi...

Sufoco

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Aquela manhã ensolarada de sábado começou como nas semanas anteriores: levantei cedo para ir trabalhar. E também como nas últimas semanas, acordei de um sono inquieto. Esses dias têm sido complicados... Uma montanha russa de emoções e pensamentos. Em menos de um mês pensei em deixar o trabalho, a faculdade e a minha casa. Parece conversa de doido ou de quem não tem mais o que inventar.  Será? Me falta o ar, tanto quanto a paixão por fazer algo. Faz um tempo que não brilho os olhos por qualquer coisa que seja. A vida parece monotom e monótona. Respirei fundo e ponderei sobre tudo mais vezes do que gostaria. E o pior: não cheguei a lugar algum. Aliás, apenas me mantive estático, (des)confortável.  Claro né, é bem mais cômodo ficar onde estou do que procurar algo novo, novos caminhos, novos desafios, novas pessoas. Dia desses me olhei no espelho por alguns segundos e perguntei em voz alta para o reflexo: quem é tu? Obviamente que não recebi resposta ...

Uma tarde no chafariz

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Chafariz do campus Zona Sul do Centro Universitário Ritter dos Reis, em Porto Alegre Naquele dia eu estava completamente cansado. Esgotado psicologicamente. O corpo não aguentava mais. Era um final de semestre na faculdade que me consumiu muito porque os trabalhos ficavam sempre para a última semana e como sou muito bem organizado, deixei tudo para fazer no prazo final. Logo, as horas acordado e trabalhando eram mais do que o dobro das horas de descanso - dormir oito horas era utopia. O clima estava na medida certa: uma brisa suave e o sol aquecia o suficiente, nem a mais e nem de menos. Um dia perfeito e equilibrado, completamente o contrário do que se passava comigo. Era como se a natureza estivesse zombando do meu desiquilíbrio. Quando cheguei na faculdade, fui até o subsolo pois tinha compromisso na agência de comunicação onde trabalhava durante algumas horas da tarde, antes de ir para a aula. Exercia a função de repórter, editor, produtor e era coordenado pela professora que...

Almas nos espelhos

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(Foto: @_cromy/We Heart it) A minha relação com espelhos sempre foi complexa e passou por várias fases. Quando eu era criança, adorava brincar com espelhos, descobrir quem eu era e como as pessoas me enxergavam. Depois, na adolescência, me afastei um pouco deles. Foi aí que começou o distanciamento entre como eu me via e como as outras pessoas me percebem. Moro em uma casa pequena, quase do tamanho de um kitnet: uma sala, uma cozinha, um quarto e um banheiro. Três desses cômodos têm um espelho. Só que até pouco tempo eu fingia que eles não estavam ali. No máximo, usava o espelho do banheiro para conferir se lavei bem o rosto pela manhã ou se ficou pasta de dente no bigode, depois de escovar os dentes. Ficar muito tempo me olhando era muito desconfortável. Eu não queria olhar meu corpo, meu rosto, minhas roupas, meus olhos. Não queria me encarar. Apesar de o espelho conservar apenas um reflexo, aquele olhar ainda é o meu, a carne também. Porém, depois de tantos anos me esquivand...

Doze desejos

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Os ponteiros do relógio vagarosamente se movem em direção ao número doze, fogos de artifício cobrem o céu como flores de pólvora e fogo, milhões de pessoas, agarradas em suas crenças e rotinas do final do ano, têm certeza de que esta é uma nova página - um capítulo incrível de uma história ainda desconhecida.  Em cima da escrivaninha polida, uma lista de desejos para o próximo ano: fazer exercícios físicos, aprender um novo idioma, passar mais tempo com a família... Porém, entre os doze itens rabiscados, nenhum vestígio de exercitar o amor próprio, empatia, humildade, resiliência.  Fantoches das tradições, acreditamos que, somente e unicamente, as cores das roupas, a lentilha, o cacho de uvas, o punhado de simpatias e as ondas do mar, são capazes de realizar uma tarefa que, naturalmente, é nossa – ser responsável por nossas ações e reações. Legado da negação, a lista de desculpas para nos afastarmos da responsabilidade é, ironicamente, tão longa quanto a dúz...

Porta retrato

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  (Imagem: @ezgi_sengul) O mundo é um caos. Viver, às vezes, pode parecer durar uma fração de segundo. Tem dias que, neste universo inconstante e de encontros quase sempre passageiros, esquecemos de deixar ser conduzidos pelas boas experiências desta jornada – o sorriso espontâneo se torna um ser raro e a gratidão sincera, um animal em extinção. Curvamos a cabeça para um vazio que inunda a alma invés de agradecer pela oportunidade de experimentar mais um punhado de frações de segundos ao lado daqueles que nos acolhem e fazem florescer. Quando o coração latejar com a dor que inevitavelmente virá, a saudade e o medo fecharem as garras em torno da garganta, tenha na cabeceira da cama um porta retrato. Respire fundo e, por uma fração de segundo, observe esta foto – o registro dos milésimos do tempo distintos de todos os outros - que servirá como bebida salutar que corre pelo peito, dá ar novo aos pulmões e aquieta o espírito melancólico.