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Sussurro

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Foto:  Wael Alramahi/We Heart It Era uma noite que já fazia parte da rotina que criamos - uma janta deliciosa acompanhada de um filme ou série -, nós enrolados no sofá da sala. É algo tão simples, mas ao mesmo tempo único, e nosso, íntimo. Já tinham se passado dias desde que entendi o que estava acontecendo comigo, só que eu não queria admitir, aceitar, cogitar essa ideia. Afinal, fiz as pazes com a ideia de construir um legado sozinho, uma mala de baixo do braço e o desejo de mudar o mundo, nada além disso. É tão clichê e verdadeiro. Porém, foi crescendo, entre as falhas da calçada, debaixo do sol, chuva, vento, das solas dos meus pés, tentativas de não deixar vingar e florescer. Eu estava tão perplexo que não conseguia nomear. Afastava essa palavra dos meus pensamentos como quem tenta estapear um inseto insistente. Falar em voz alta?! NUNCA! Tive que jurar frente ao espelho, numa daquelas conversas com o meu interior, me encarando nos olhos e revirando dentro da alma, que não era...

Extinto pelo fogo

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Enquanto meu fogo destrói a humanidade, eu estarei admirando a extinção das misérias (Imagem: @chesakins/ We heart it) Rejeição. O gosto amargo da desistência alheia escorre pela minha garganta seca. Esse líquido queima enquanto arrasta sua viscosidade obscura, marcando meu interior com o sabor do fracasso. Há anos que digo que eu construo muralhas para impedir que viajantes se aproximem - é como me defendo das mágoas humanas. Porém, vez ou outra um guerreiro ultrapassa essa barreira ou, por algum motivo que não sei explicar, deixo ele entrar nos meus domínios. Seja qual for a razão dessa invasão, o resultado é bem parecido: eu, encolhido em um canto qualquer, sendo corroído pela dor. Embora as retas finais tenham similaridades, sou como uma mariposa atraída pelo calor e no lapso de minutos que esqueço o passado, eu voo na direção do fogo, alegre, batendo as asas rumo ao fim. Essa dança macabra, orquestrada por um destino irônico e ácido, me hipnotiza, deixando em t...

Cela no subsolo

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Por trás dessa tua testa franzida e expressão carrancuda se esconde um ser que se encanta com um sorriso espontâneo, sente a brisa do final da tarde como um carinho no rosto e enxerga os mais singelos sinais de afeto. Eu olho nos teus olhos e encaro uma labareda acesa, dançando em tons vivos de amarelo e vermelho. Mas te pergunto: por que tu foge tanto? Do que tu tem medo? Aliás, de quem tu tem medo?  Toda vez que alguém se aproxima demais, tu liga um tipo de alarme interno que aciona teus portões, muralhas com arame farpado e cacos de vidro que são vigiados por feras que estraçalham os intrusos. Ninguém pode chegar perto. Ninguém pode ver o que se encolhe por trás de ti, desse personagem inabalável e inacessível.  Talvez, tu pense que isso é proteção, é sobrevivência. E eu te entendo, sabe. Tua pele não está marcada por tantas cicatrizes e marcas, porém, o teu coração e tua alma sim. E são esses remendos sombrios que sussurram nos teus ouvidos. Eles dizem qu...

Ela não sabe.

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(Foto: alexey demidov) Ela não sabe o quanto dela ficou em mim. Ela não sabe o quanto ela deixou pra trás. Sem ela, provavelmente eu nem estaria aqui, provavelmente eu nem seria assim. Ela foi quem me resgatou das masmorras, me buscou no chafariz, me acolheu quando eu fugia de mim. Ela me colocou de frente comigo no espelho embaçado com a fumaça da insegurança e do medo. E ficou do meu lado até a ilusão se dissipar e eu ter a coragem de encarar o meu reflexo. São incontáveis os conselhos, sem mensurar do tanto de vezes que as palavras delas fizeram desmoronar as muralhas que construí para me proteger do mundo. Ela pegou minha mão, afagou meus cabelos, me abraçou. Ela não me deixou ir. Ela me fez ficar. Na verdade, ela foi além: me fez querer ficar. Ela me ensinou a lutar para ficar, continuar, persistir. Ela me resgatou do furacão que eu mesmo instiguei. Ela girou os gravetos secos no meu peito até que uma fagulha acendeu e me fez ascender. Depois, me ensi...

Sufoco

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Aquela manhã ensolarada de sábado começou como nas semanas anteriores: levantei cedo para ir trabalhar. E também como nas últimas semanas, acordei de um sono inquieto. Esses dias têm sido complicados... Uma montanha russa de emoções e pensamentos. Em menos de um mês pensei em deixar o trabalho, a faculdade e a minha casa. Parece conversa de doido ou de quem não tem mais o que inventar.  Será? Me falta o ar, tanto quanto a paixão por fazer algo. Faz um tempo que não brilho os olhos por qualquer coisa que seja. A vida parece monotom e monótona. Respirei fundo e ponderei sobre tudo mais vezes do que gostaria. E o pior: não cheguei a lugar algum. Aliás, apenas me mantive estático, (des)confortável.  Claro né, é bem mais cômodo ficar onde estou do que procurar algo novo, novos caminhos, novos desafios, novas pessoas. Dia desses me olhei no espelho por alguns segundos e perguntei em voz alta para o reflexo: quem é tu? Obviamente que não recebi resposta ...

Uma tarde no chafariz

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Chafariz do campus Zona Sul do Centro Universitário Ritter dos Reis, em Porto Alegre Naquele dia eu estava completamente cansado. Esgotado psicologicamente. O corpo não aguentava mais. Era um final de semestre na faculdade que me consumiu muito porque os trabalhos ficavam sempre para a última semana e como sou muito bem organizado, deixei tudo para fazer no prazo final. Logo, as horas acordado e trabalhando eram mais do que o dobro das horas de descanso - dormir oito horas era utopia. O clima estava na medida certa: uma brisa suave e o sol aquecia o suficiente, nem a mais e nem de menos. Um dia perfeito e equilibrado, completamente o contrário do que se passava comigo. Era como se a natureza estivesse zombando do meu desiquilíbrio. Quando cheguei na faculdade, fui até o subsolo pois tinha compromisso na agência de comunicação onde trabalhava durante algumas horas da tarde, antes de ir para a aula. Exercia a função de repórter, editor, produtor e era coordenado pela professora que...

Almas nos espelhos

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(Foto: @_cromy/We Heart it) A minha relação com espelhos sempre foi complexa e passou por várias fases. Quando eu era criança, adorava brincar com espelhos, descobrir quem eu era e como as pessoas me enxergavam. Depois, na adolescência, me afastei um pouco deles. Foi aí que começou o distanciamento entre como eu me via e como as outras pessoas me percebem. Moro em uma casa pequena, quase do tamanho de um kitnet: uma sala, uma cozinha, um quarto e um banheiro. Três desses cômodos têm um espelho. Só que até pouco tempo eu fingia que eles não estavam ali. No máximo, usava o espelho do banheiro para conferir se lavei bem o rosto pela manhã ou se ficou pasta de dente no bigode, depois de escovar os dentes. Ficar muito tempo me olhando era muito desconfortável. Eu não queria olhar meu corpo, meu rosto, minhas roupas, meus olhos. Não queria me encarar. Apesar de o espelho conservar apenas um reflexo, aquele olhar ainda é o meu, a carne também. Porém, depois de tantos anos me esquivand...